terça-feira, 9 de Fevereiro de 2010

Evangelho do próximo domingo (14 de Fev.)


Do Evangelho de Lucas (6, 17.20-26)

Naquele tempo, Jesus desceu do monte, na companhia dos Apóstolos, e deteve-Se num sítio plano, com numerosos discípulos e uma grande multidão de toda a Judeia, de Jerusalém e do litoral de Tiro e Sidónia. Erguendo então os olhos para os discípulos, disse: Bem-aventurados vós, os pobres, porque é vosso o reino de Deus. Bem-aventurados vós, que agora tendes fome, porque sereis saciados. Bem-aventurados vós, que agora chorais, porque haveis de rir. Bem-aventurados sereis, quando os homens vos odiarem, quando vos rejeitarem e insultarem e proscreverem o vosso nome como infame, por causa do Filho do homem. Alegrai-vos e exultai nesse dia, porque é grande no Céu a vossa recompensa. Era assim que os seus antepassados tratavam os profetas. Mas ai de vós, os ricos, porque já recebestes a vossa consolação. Ai de vós, que agora estais saciados, porque haveis de ter fome. Ai de vós, que rides agora, porque haveis de entristecer-vos e chorar. Ai de vós, quando todos os homens vos elogiarem. Era assim que os seus antepassados tratavam os falsos profetas.

sábado, 6 de Fevereiro de 2010

Deus chama pecadores

Ouvimos falar, nas leituras de hoje, relatos de vocação: a vocação de Isaías e a vocação dos primeiros Apóstolos.
E embora, quando falamos de vocação nós possamos associar ao que fazemos bem, ao 'ter jeito para' ou 'ter queda' ou então fazer aquilo que gostamos e em que nos sentimos bem, o verdadeiro sentido desta palavra, que é bíblica, prende-se com a sua origem latina: vocare, chamar.
A vocação é, portanto, e antes de mais, um chamamento. E um chamamento que tem um eco, uma resposta. Sendo resposta implica diálogo. Nos relatos de vocação que encontramos na Bíblia temos sempre presentes dois movimentos: Deus que chama, o homem que responde. De resto, nas duas leituras está muito presente este sentido genuíno de vocação: Isaías responde ao apelo de Deus: "Quem enviarei?"; Pedro, Tiago e João respondem ao convite de Jesus: "Daqui em diante serás pescador de homens".
Não é também aquilo que se quer fazer, ou a queda que se tem para determinada coisa, para determinada profissão (por exemplo). Nunca ninguém na Igreja poderá falar de 'ter direito a…' Sendo uma resposta a um chamamento, a vocação torna-se um serviço, um ministério.
Pode parecer conversa dirigida para consagrados ou para padres (vocações de especial consagração) mas não. Independentemente da nossa vocação comum, como membros do Povo de Deus, da comunidade cristã à qual estamos ligados (Deus, eu, Igreja), cada um de nós tem, para além desta vocação social uma vocação pessoal.
Vocação essa que é primeira e comum a todos: o seguimento. Como a dos primeiros discípulos de Jesus: a nossa primeira vocação é a adesão a Cristo na Igreja.
Não é inocente este relato dos primeiros discípulos no contexto de uma pesca. Desde cedo que os cristãos viram na barca a figura da Igreja, que navega com Cristo, no mar que é o mundo. E também desde cedo os cristãos se aperceberam que só com Cristo, só obedecendo à sua voz, a Igreja é fiel à sua própria vocação no mundo: oferecer a de salvação a todos os que dela se aproximam.
E nós somos fundamentais nesta pescaria. Dentro da barca, ou talvez ainda na rede, ouvimos o apelo de Jesus e lançamos, também nós as redes, e se temos algum sucesso é porque obedecemos à sua voz: “porque o dizes, lançarei as redes”.
E não é também tarefa exclusiva dos mais puros; é a nós, os pecadores, como se achavam Isaías e Pedro, que Deus nos manda lançar a sua mensagem. Quem se sente chamado por Deus acha-se sempre 'incapaz de', um abortivo, como se considerava Paulo. Por isso, Deus chama-nos: chama a cada um de nós como cada um de nós é. E não deveríamos pôr entraves nem questionar a vontade de Deus porque, ninguém melhor que Ele, nos conhece, conhece as nossas fragilidades, conhece as nossas limitações, conhece os nossos pecados. Ainda assim c
hama-nos a segui-lo, chama-nos a ser luz do mundo e sal da terra. Deus chama-nos, Deus quer que cada um de nós seja uma manifestação viva do seu amor pela humanidade.
A vocação leva-nos à felicidade. É um caminho de felicidade. Não uma felicidade temporária como uma profissão mas a uma felicidade permanente, mesmo em ambiente difícil porque não nos impusemos mas sentimo-nos chamados. Ser profeta no tempo de Isaías não era nenhuma glória, como não era ser discípulo de Cristo. Ambos, Isaías e Pedro – e em Isaías e Pedro estão incluídos todos os que desde o princípio do mundo obedeceram a uma voz, porque foram obedientes a um chamamento, às vezes têm um fim trágico (aos nossos olhos porque como dizia São Paulo: “para mim viver é Cristo e morrer é lucro” Fl 1, 21).
Mas se há uma vocação primeira há também uma vocação última à qual, também cada um de nós é chamado que é a vocação à santidade. Que também é caminho proposto a pecadores como nós. Não é para os outros, não é para os perfeitos – Cristo podia ter escolhido gente muito mais importante que pescadores… – é o nosso caminho. Papa, Bispos, padres, religiosos e religiosas, casados solteiros, mais novos e mais velhos, todos somos chamados a esta vocação universal da santidade. Também como dizia São Paulo, a vontade de Deus a nosso respeito é a nossa santificação.
É à revisão da nossa vocação na Igreja que nos desafiam estas leituras. É o que nos une: pelo baptismo pertencemos a Cristo e à Igreja; somos cristãos. E como cristãos temos uma missão na barca e no mar: dar testemunho sendo testemunha.
Que o Senhor abra os nossos horizontes de vocação e santidade. Certamente seremos mais santos se fizermos da nossa vocação uma descoberta sempre nova, sempre alegre, que nos leva a ir para o mar da vida, lançar as redes e seguir o Senhor.

sexta-feira, 5 de Fevereiro de 2010

Evangelho do próximo domingo - uma partilha

AS MALHAS DA REDE

Nas leituras deste V Domingo do Tempo Comum descrevem-se as circunstâncias em que Isaías, Paulo, Simão, Tiago e João aceitam o desafio da graça de Deus e se tornam seus apóstolos.

Eles deixam tudo e aceitam tornar-se pescadores de homens.

Mas quem são estes homens que realizam aquilo que nos parece sobre-humano para as nossas capacidades? São pessoas humildes e mesmo perseguidores da Igreja os escolhidos para serem as malhas da sua rede de pescadores de homens.

Numa época em que somos capazes de estar horas a passear na rede virtual que nos coloca instantaneamente a par do que se passa em qualquer parte do Mundo, em que nos comovemos e mobilizamos ciclicamente com as catástrofes que atingem diversos pontos do globo, seremos também nós capazes de responder afirmativamente ao convite que Deus nos dirige de, pela sua graça, sermos malhas da rede de pescadores de homens? O nosso testemunho é único e insubstituível.


Ana Mota e José Cordovil

quinta-feira, 4 de Fevereiro de 2010

Papa fala sobre São Domingos

Catequese do Papa: São Domingos de Gusmão, o grande pregador

Queridos irmãos e irmãs:

Na semana passada, apresentei a luminosa figura de Francisco de Assis. Hoje, eu gostaria de falar-vos sobre outro santo que, na mesma época, ofereceu uma contribuição fundamental para a renovação da Igreja do seu tempo. Trata-se de São Domingos, o fundador da Ordem dos Pregadores, conhecidos também como Frades Dominicanos.

Seu sucessor na guia da Ordem, o beato Jordão da Saxônia, oferece um retrato completo de São Domingos no texto de uma famosa oração: “Inflamado do zelo de Deus e de ardor sobrenatural, por sua caridade sem fim e pelo fervor do espírito veemente, tu te consagraste todo inteiro, com o voto de pobreza perpétua, à observância apostólica e à pregação evangélica”. É precisamente este traço fundamental do testemunho de Domingos que é preciso sublinhar: ele falava sempre com Deus e de Deus. Na vida dos santos, o amor pelo Senhor e pelo próximo, a busca da glória de Deus e da salvação das almas caminham sempre juntos.

Domingos nasceu na Espanha, em Caleruega, por volta de 1170. Pertencia a uma nobre família da velha Castilha e, apoiado por um tio sacerdote, formou-se em uma célebre escola de Palência. Distinguiu-se imediatamente pelo interesse no estudo da Sagrada Escritura e pelo amor aos pobres, até o ponto de vender os livros, que em seu tempo constituíam um bem de grande valor, para socorrer, com o dinheiro da venda, as vítimas de uma carestia.

Ordenado sacerdote, foi eleito cônego do capítulo da catedral da sua diocese de origem, Osma. Ainda que esta nomeação pudesse representar para ele algum motivo de prestígio na Igreja e na sociedade, ele não a interpretou como um privilégio pessoal nem como o começo de uma brilhante carreira eclesiástica, mas como um serviço a ser realizado com dedicação e humildade. Não seria talvez uma tentação a da carreira, do poder, uma tentação da qual nem sequer estão imunes aqueles que têm um papel de animação e de governo na Igreja? Recordei isso há alguns meses, durante a consagração de alguns bispos: “Não procuremos o poder, o prestígio e a estima para nós mesmos. (...) Sabemos como as coisas na sociedade civil e, com frequência, também na Igreja sofrem pelo fato de que muitos deles, aos quais foi conferida uma responsabilidade, trabalham para si mesmos e não para a comunidade” (Homilia. Capela Papal para a ordenação de cinco novos bispos, 12 de setembro de 2009).

O bispo de Osma, que se chamava Diego, um pastor zeloso e verdadeiro, notou rapidamente as qualidades espirituais de Domingos e quis contar com sua colaboração. Juntos, dirigiram-se ao norte da Europa, para realizar missões diplomáticas confiadas pelo rei de Castilha. Viajando, Domingos percebeu dois enormes desafios para a Igreja da sua época: a existência de povos ainda sem evangelizar, nos confins setentrionais do continente europeu, e a laceração religiosa que enfraquecia a vida cristã no sul da França, onde a ação de alguns grupos hereges criava desordem e afastamento da verdade da fé. A ação missionária com quem não conhece a luz do Evangelho e a obra de re-evangelização das comunidades cristãs se converteram, assim, nas metas apostólicas que Domingos se propôs a seguir.

Foi o Papa – a quem o bispo Diego e Domingos se dirigiram para pedir conselho – que pediu a este último que se dedicasse à pregação aos albigenses, um grupo herege que sustentava uma concepção dualista da realidade, isto é, com dois princípios criadores igualmente poderosos, o Bem e o Mal. Este grupo, em consequência, desprezava a matéria como procedente do princípio do mal, rejeitando inclusive o matrimônio, até negar a encarnação de Cristo, os sacramentos, nos quais o Senhor nos “toca” através da matéria, e a ressurreição dos corpos. Os albigenses estimavam a vida pobre e austera – neste sentido, eram inclusive exemplares – e criticavam a riqueza do clero daquele tempo. Domingos aceitou com entusiasmo esta missão, que levou a cabo precisamente com o exemplo da sua existência pobre e austera, com a pregação do Evangelho e com os debates públicos. A esta missão de pregar a Boa Notícia dedicou o resto da sua vida. Seus filhos realizariam também os demais sonhos de São Domingos: a missão ad gentes, isto é, com aqueles que ainda não conheciam Jesus, e a missão com aqueles que moravam nas cidades, sobretudo as universitárias, onde as novas tendências intelectuais eram um desafio para a fé dos cultos.

Este grande santo nos recorda que, no coração da Igreja, deve arder sempre um fogo missionário, que conduz incessantemente a levar o primeiro anúncio do Evangelho e, onde for necessário, a uma nova evangelização: é Cristo, de fato, o bem mais precioso que os homens e as mulheres de todas as épocas e lugares têm o direito de conhecer e amar! E é consolador ver como, também na Igreja de hoje, são tantos – pastores e fiéis leigos, membros de antigas ordens religiosas e de novos movimentos eclesiais – que, com alegria, gastam sua vida por este ideal supremo: anunciar e dar testemunho do Evangelho.

A Domingos de Gusmão se associaram depois outros homens, atraídos pela mesma aspiração. Dessa forma, progressivamente, desde a primeira fundação em Tolosa, teve sua origem a Ordem dos Pregadores. Domingos, de fato, em plena obediência às diretivas dos papas da sua época – Inocêncio III e Honório III –, adotou a antiga Regra de Santo Agostinho, adaptando-a às exigências da vida apostólica, que levavam seus companheiros e ele a pregarem transladando-se de um lugar a outro, mas voltando depois aos seus próprios conventos, lugares de estudo, oração e vida comunitária. De modo particular, Domingos quis dar relevância a dois valores considerados indispensáveis para o êxito da missão evangelizadora: a vida comunitária na pobreza e o estudo.

Antes de tudo, Domingos e os Frades Pregadores se apresentavam como mendicantes, isto é, sem vastas propriedades de terrenos a serem administrados. Este elemento os tornava mais disponíveis para o estudo e para a pregação itinerante e constituía um testemunho concreto para as pessoas. O governo interno dos conventos e das províncias dominicanas se estruturou sobre o sistema de capítulos, que elegiam seus próprios superiores, confirmados depois pelos superiores maiores; uma organização, portanto, que estimulava a vida fraterna e a responsabilidade de todos os membros da comunidade, exigindo fortes convicções pessoais. A escolha deste sistema nascia precisamente do fato de que os Dominicanos, como pregadores da verdade de Deus, deveriam ser coerentes com o que anunciavam. A verdade estudada e compartilhada na caridade com os irmãos é o fundamento mais profundo da alegria. O beato Jordão da Saxônia diz de São Domingos: “Acolhia cada homem no grande seio da caridade e, como amava todos, todos o amavam. Ele havia estabelecido uma lei pessoal de alegrar-se com as pessoas felizes e de chorar com aqueles que choravam” (Libellus de principiis Ordinis Praedicatorum autore IordanoIordano de Saxonia, ed. H.C. Scheeben, [Monumenta Historica Sancti Patris Nostri Dominici, Romae, 1935]).

Em segundo lugar, Domingos, com um gesto valente, quis que seus seguidores adquirissem uma sólida formação teológica e não hesitou em enviá-los às universidades da época, ainda que muitos eclesiásticos olhassem com desconfiança para estas instituições culturais. As Constituições da Ordem dos Pregadores dão muita importância ao estudo como preparação para o apostolado. Domingos quis que seus frades se dedicassem a ele sem reservas, com diligência e piedade; um estudo fundado na alma de cada saber teológico, isto é, na Sagrada Escritura, e respeitoso diante das perguntas apresentadas pela razão. O desenvolvimento da cultura impõe àqueles que realizam o ministério da Palavra, nos diversos níveis, uma boa preparação.

Portanto, exorto todos, pastores e leigos, a cultivarem esta “dimensão cultural” da fé, para que a beleza da vida cristã possa ser mais bem compreendida e a fé possa ser verdadeiramente nutrida, reforçada e também defendida. Neste Ano Sacerdotal, convido os seminaristas e sacerdotes a estimarem o valor espiritual do estudo. A qualidade do ministério sacerdotal depende também da generosidade com que a pessoa se aplica ao estudo das verdades reveladas.

Domingos, que quis fundar uma ordem religiosa de pregadores-teólogos, recorda-nos que a teologia tem uma dimensão espiritual e pastoral, que enriquece a alma e a vida. Os sacerdotes, os consagrados e também todos os fiéis podem encontrar uma profunda “alegria interior” ao contemplar a beleza da verdade que vem de Deus, verdade sempre atual e sempre viva. O lema dos Frades Pregadores – contemplata aliis tradere – nos ajuda a descobrir, além disso, um desejo pastoral no estudo contemplativo destas verdades, pela exigência de comunicar aos demais o fruto da própria contemplação.

Quando Domingos morreu, em 1221, na Bolonha – a cidade que o declarou seu padroeiro –, sua obra já havia tido grande êxito. A Ordem dos Pregadores, com o apoio da Santa Sé, havia se difundido em muitos países da Europa, em benefício da Igreja inteira.

Domingos foi canonizado em 1234 e é ele mesmo que, com sua santidade, nos indica dois meios fundamentais para que a ação apostólica seja penetrante. Antes de tudo, a devoção mariana, que ele cultivou com ternura e que deixou como herança preciosa aos seus filhos espirituais, os quais, na história da Igreja, tiveram o grande mérito de difundir a oração do santo rosário, tão querida pelo povo cristão e tão repleta de valores evangélicos, uma verdadeira escola de fé e de piedade. Em segundo lugar, Domingos, que se encarregou de alguns mosteiros femininos na França e em Roma, acreditou profundamente na oração de intercessão pelo êxito do trabalho apostólico. Somente no Paraíso compreenderemos quanto a oração das religiosas de clausura acompanhou eficazmente a ação apostólica! A cada uma delas dirijo meu pensamento agradecido e carinhoso.

Queridos irmãos e irmãs: que a vida de Domingos de Gusmão nos leve a ser ferventes na oração, valentes na vivência da fé, profundamente enamorados de Jesus Cristo. Por sua intercessão, peçamos a Deus que enriqueça sempre a Igreja com autênticos pregadores do Evangelho.

[No final da audiência, o Papa cumprimentou os peregrinos em vários idiomas. Em português, disse:]

Queridos irmãos e irmãs:

O bem mais precioso que as pessoas têm direito e necessidade de conhecer e amar é Cristo. Por isso, no coração da Igreja, deve arder sempre um fogo missionário, que impele a anunciar e testemunhar o Evangelho de Jesus a quem o não conhece ou dele se afastou. Este fogo ardia no coração do sacerdote e pregador Domingos de Gusmão, que nele incendiou os companheiros movidos pela mesma aspiração, dando início à Ordem dos Pregadores ou Dominicanos. Para o bom sucesso da missão evangelizadora, recomendou-lhes a vida comunitária em pobreza e o estudo como preparação ao apostolado. A vivência destes dois valores dá ao pregador a coerência com a verdade de Deus que anuncia. Para ganhar o coração dos ouvintes, São Domingos contava com a terna devoção à Virgem Mãe, que depois tomaria a forma da recitação do terço, e com a fecunda retaguarda espiritual das monjas contemplativas.

Amados peregrinos de língua portuguesa, uma cordial saudação de boas-vindas para todos, com votos de que a vossa visita ao lugar da Confissão de Pedro seja rica de graças e luzes do Alto, que vos ajudem a ser sempre autênticas e incansáveis testemunhas de Cristo. Em seu nome, dou-vos a minha bênção, extensiva a vossos familiares e comunidades cristãs.

[Tradução: Aline Banchieri

©Libreria Editrice Vaticana]

terça-feira, 2 de Fevereiro de 2010

Homilia da Apresentação do Senhor (2. Fev.)


A liturgia de hoje centra-se na luz. Uma luz da qual as nossas velas e as luzes desta igreja são um sinal de uma outra luz, que é o que nos reúne neste final de tarde: uma luz que tem um nome e que é maior que todas as luzes: Jesus Cristo.


E embora todas as festas tenham a alegria como ambiente celebrativo, esta alegria que envolvia o ritual de levar o Menino Jesus ao templo para ser circuncidado e consagrado a Deus, depressa se transformou em dor, com a profecia trágica de Simeão: “Este Menino foi estabelecido para que muitos caiam ou se levantem em Israel e para ser sinal de contradição; – e uma espada trespassará a tua alma”.


Para Maria e para Jesus o primeiro dos sofrimentos, a primeira das dores, como nos lembrava a segunda leitura. Não há existência sem sofrimento, sabemo-lo bem; e Jesus, ao fazer-se um de nós, ao experimentar o sofrimento, dizia também a leitura, torna-se solidário connosco, de tal forma, que até em momentos tão angustiantes, como devem ser o do sofrimento e o da dor, nós podemos sentir uma presença, uma luz de Deus.


Mas também sabemos que, muitas vezes, depois do sofrimento vem a alegria. O salmo 125 diz isto mesmo: “Aqueles que semeiam com lágrimas,vão recolher com alegria. À ida vão a chorar, carregando e lançando as sementes; no regresso cantam de alegria, transportando os molhos de espigas”. E por isso, apesar de nos aparecerem nas leituras uma nota de sofrimento e de tristeza, para nós esta festa é de alegria. Porque, como dizia, fala-se de uma luz. Uma luz que dissipa as trevas, uma luz que esclarece, uma luz que não se apaga.


Esta festa convida-nos, portanto, a vermos em Jesus a luz que revela e que se revela. Creio ser este o centro do Evangelho que escutámos. Tudo converge para o Menino, em quem os velhos Simeão e Ana vêem a luz que dá sentido à humanidade.


Luz que ilumina, luz que purifica. A luz que entra no mais recôndito dos cantos escuros, que os purifica com a sua claridade. E, por isso, um outro tema presente é o da purificação. A noite, as trevas, simbolizam muitas vezes mal, o pecado, o que precisa de purificação. E não há outra luz, a de Cristo, a Luz sem ocaso, que há-de purificar o mal que há em nós, que nos há-de encaminhar para uma vida mais pura, mais límpida, mais feliz, assim o deseje o nosso coração.


Começámos esta celebração com um lucernário. Acendemos as nossas velas no Círio, presença de Cristo na sua Igreja e na nossa vida. A missão da vela é iluminar. E, ao iluminar, vai-se gastando. Foi assim a vida de Jesus: foi luz onde havia trevas, fez o bem onde andava o mal, foi vida onde reinava a morte. Uma luz que se apagou na cruz mas que brilhou ainda mais forte na manhã de Páscoa.


Jesus disse, em momentos diferentes, que ele é e que nós somos a luz do mundo. E a nossa vida, que deve ser imitação da de Jesus no que diz respeito ao estar no mundo, deve ser também ela uma luz que não é para estar escondida mas para brilhar; também nós devemos levar o bem onde anda o mal e dar vida onde ela não existe ou está enfraquecida.


Não substituímos a luz de Cristo, somos chamados a ser testemunhas da luz porque cada um de nós não é mais do que o brilho da luz que é Cristo a arder em nós.

Evangelho do próximo Domingo (7 Fev.)


Do Evangelho de São Lucas (5, 1-11)

Naquele tempo, estava a multidão aglomerada em volta de Jesus, para ouvir a palavra de Deus. Ele encontrava-Se na margem do lago de Genesaré e viu dois barcos estacionados no lago. Os pescadores tinham deixado os barcos e estavam a lavar as redes. Jesus subiu para um barco, que era de Simão, e pediu-lhe que se afastasse um pouco da terra. Depois sentou-Se e do barco pôs-Se a ensinar a multidão. Quando acabou de falar, disse a Simão: «Faz-te ao largo e lançai as redes para a pesca». Respondeu-Lhe Simão: «Mestre, andámos na faina toda a noite e não apanhámos nada. Mas, já que o dizes, lançarei as redes». Eles assim fizeram e apanharam tão grande quantidade de peixes que as redes começavam a romper-se. Fizeram sinal aos companheiros que estavam no outro barco, para os virem ajudar; eles vieram e encheram ambos os barcos, de tal modo que quase se afundavam. Ao ver o sucedido, Simão Pedro lançou-se aos pés de Jesus e disse-Lhe: «Senhor, afasta-Te de mim, que sou um homem pecador». Na verdade, o temor tinha-se apoderado dele e de todos os seus companheiros, por causa da pesca realizada. Isto mesmo sucedeu a Tiago e a João, filhos de Zebedeu, que eram companheiros de Simão. Jesus disse a Simão: «Não temas. Daqui em diante serás pescador de homens». Tendo conduzido os barcos para terra, eles deixaram tudo e seguiram Jesus.

domingo, 31 de Janeiro de 2010

Homilia deste Domingo (31. Jan)


Seria quase um pecado não falarmos hoje da segunda leitura que, aliás já temos vindo a escutar nestes domingos do Tempo Comum e que têm vindo a falar da unidade nas comunidades, que é uma preocupação de Paulo para com a comunidade de Corinto; uma unidade na diversidade de dons e carismas. Na leitura da semana passada ouvíamos São Paulo dizer que cada um de nós faz parte de um mesmo corpo, o da Igreja do qual Cristo é a cabeça, hoje escutámos talvez o mais belo texto de São Paulo, o chamado hino da caridade.

E, como já dissemos, este hino vem na sequência do que São Paulo tinha vindo a falar sobre os carismas na comunidade. Ou seja, que é bom que haja diversidade de dons e de carismas, que cada um de nós tem o seu papel e o seu lugar se for para edificação da comunidade. E termina estas recomendações dizendo que é a caridade, é o amor que dá sentido a tudo o que nós possamos fazer e é também a caridade que garante a unidade dos cristãos e das comunidades.
Como ele próprio disse: podemos fazer muitas coisas, as mais difíceis, as mais vistosas, até as mais importantes, mas se não tivermos caridade, se elas não estiverem embebidas no amor isso não vale nada.
A caridade torna-se então, também como diz ainda São Paulo, um caminho de perfeição, um caminho de unidade e de compromisso.

O conceito de caridade é um conceito a recriar. Porque é perigoso ligarmos a caridade à esmola ou à ajudinha que possamos dar. A caridade de que fala São Paulo, que se poderia traduzir por amor, é mais do que o amor sensível, atractivo, ou ainda o chamado ‘amor platónico’. (O Papa Bento XVI na primeira encíclica que escreveu “Deus Caritas est” fez bem a distinção as várias concepções desta palavra). A Caritas, não é “fogo que arde sem se ver” nem “um contentamento descontente” como escrevia Camões, ou, como dizíamos, da caridade de uma esmola que se possa dar ou de pena que se possa ter. O Amor-Caridade é entrega, é doação, não exclui ninguém. O Amor-Caridade é mais do que dar ao outro o seu próprio amor: é dar aos outros o amor do próprio Cristo. É esta a novidade do mandamento novo: “Amai-vos uns aos outros como EU vos amei”.
Não querendo nem conseguindo dizer melhor que são Paulo, poderíamos ainda dizer que a Caridade é o amor com que os santos amaram. Que amor, senão o de Deus, poderia ter movido os corações de tantos homens e mulheres, conhecidos e anónimos, que apesar de situações desesperantes foram e são a única referência, a única esperança, o único calor neste nosso mundo?
A caridade (com o seu quê de divino) é o amor com que nós devemos amar; um amor desinteressado, um amor permanente, um amor que une e perdoa.
Gostava de vos falar de um escritor do primeiro século cristão, São Clemente, que foi Bispo de Roma – o quarto papa – e que pelo ano 94 escreveu também ele uma carta aos Coríntios e que, curiosamente, na linha de São Paulo, falou também da Caridade divina. Dizia ele: “A altura a que nos eleva a caridade é inexprimível. A caridade une-nos a Deus, a caridade cobre a multidão dos pecados. A caridade tudo aceita, tudo suporta com paciência. Nada há de indigno na caridade, nada de soberbo. A caridade não admite cismas, não promove discórdias, tudo realiza em perfeita harmonia; na caridade encontram a perfeição todos os eleitos de Deus, e sem a caridade nada é agradável ao Deus. Na caridade nos acolheu o Senhor; pela sua caridade para connosco, Jesus Cristo nosso Senhor, segundo a vontade divina, derramou o seu sangue por nós, imolou a sua carne para redimir a nossa carne, deu a sua vida para salvar a nossa vida”.
Peçamos ao Senhor o dom do seu Amor. Que saibamos cada vez mais amar à maneira de Deus, a amar a todos sem medida, tendo a certeza de que onde a caridade é verdadeira, aí está o próprio Deus.