domingo, 16 de maio de 2010

Novena ao Espírito Santo - O Consolador - 3º dia


O ESPÍRITO DE JESUS


Sete quadros da vida de Jesus
O Espírito não é apenas uma força que se apropria dos juízes e dos reis de Israel ou que inspira os profetas. O Espírito de que falamos é o Espírito de Jesus. Cada episódio da vida de Jesus no qual o Espírito tem um papel é, ao mesmo tempo, uma imagem do que nos acontece também a nós. São para nós arquétipos: podemos reconhecer-nos neles.

O impossível torna-se possível
Quem não conhece a palavra do anjo a Maria: “O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo estenderá sobre ti a sua sombra. Por isso mesmo é que o Santo que vai nascer há-de chamar-Se Filho de Deus” (Lc 1, 35)? E, segundo S. Mateus, o anjo di-lo igualmente a José: “...o que ela concebeu é obra do Espírito Santo” (Mt 1, 20).
Que faz o Espírito na Anunciação? Torna real o impossível. Porque Maria não conhece homem. Como poderia, então, conceber um filho?
É a mesma obra que o Espírito opera também em nós. Ele responde à pergunta que nos habita incessantemente: “Como será isso?”. Também na nossa vida não há um único começo que seja evidente. Põe-se sempre a mesma pergunta: como será isso possível? É assim no caso de uma vocação, de um casamento, do acolhimento de um filho, no caso de uma decisão difícil de tomar, de uma reconciliação, por ocasião da escolha dos estudos de um filho ou de uma filha, aquando do convite para assumir responsabilidades na comunidade cristã. Sem falar das múltiplas provações que são a doença, o desemprego, o encargo de pais idosos, o desaparecimento de um cônjuge, eventualmente o único ganha-pão do lar... Como será isso possível?
Mas o Espírito de Jesus é o Espírito das coisas impossíveis. Porque “nada é impossível a Deus”, diz o anjo (Lc 1, 37). E di-lo a nós também.

Um Pai no céu
Jesus está de pé no Jordão, sob a mão do Baptista. Curva a cabeça e reza. Então, o céu abre-se, o Espírito desce sobre Ele ao mesmo tempo que uma voz proclama: “Tu és o meu Filho muito amado; em Ti pus todo o meu enlevo”. (Lc 3, 22).
Isto também é dito a cada um de nós. Porque o Espírito veio até nós na mesma medida em que veio sobre Jesus no Jordão. As fontes baptismais são o nosso Jordão. Também aí o Espírito desce e o Pai diz a cada um de nós: “Tu és o meu filho muito amado, o filho do meu coração”. Porque somos filhos e filhas do Pai na mesma medida que Jesus: o Pai deu-nos tudo. Deu-nos os seus pensamentos, os seus sentimentos, as suas emoções, o seu amor infinito. Tal como a Jesus. Apenas com esta diferença: Jesus tem tudo isso desde toda a eternidade, nós recebemo-lo no tempo. Porque nós somos filhos adoptivos, mas os filhos adoptivos — todos sabem isso – são postos em pé de igualdade com os filhos naturais.
Deste modo, podemos escapar a esse sentimento de orfandade que habita o homem de hoje: não estamos sós. Temos um Pai que toma conta de cada um de nós. O Espírito é um Espírito de confiança ilimitada. E em matéria de confiança, dizia Santa Teresa de Lisieux, é impossível exagerar.

Um Apoio nas tentações
O Espírito intervém uma terceira vez na vida de Jesus. Um quadro invulgar que, muitas vezes, descuramos completamente. “Cheio do Espírito Santo, Jesus retirou-Se do Jordão e foi levado pelo Espírito ao deserto” (Lc 4, 1). Marcos exprime a situação de forma ainda mais crua: “Em seguida, o Espírito impeliu-O para o deserto” (Mc 1, 12). Estranho Espírito este que induz Jesus em tentação! Será, de facto, este Espírito o Espírito de Deus?
É isso mesmo! O Espírito torna Jesus capaz de corrigir e de endireitar o que tinha corrido mal antes d’Ele, na verdade, já desde o tempo de Moisés. Nessa época, todos os filhos de Israel tinham sucumbido às tentações no deserto, de tal modo eram escravos da comida, dos prodígios, das suas próprias pessoas. O Espírito faz com que Jesus resista a tudo isso e vença a batalha contra o mal.
E nós, n’Ele, temos igualmente esse poder. As nossas tentações são o dinheiro, o prazer e o poder. São em si coisas boas, criadas por Deus. Mas introduzimos nelas o crescimento selvagem. Essas células sãs tornaram-se cancerosas. Queremos demasiados bens, demasiados prazeres, demasiado poder. De criaturas fizemos deuses.
Caímos numa armadilha e dizemos com Paulo: “Porque não compreendo o que faço: porque não faço aquilo que quero, mas sim aquilo que aborreço... Efectivamente, o bem que eu quero, não o faço, mas o mal que não quero é que pratico... Que desditoso homem que eu sou! Quem me há-de libertar deste corpo de morte?” (Rm 7, 15. 19. 24). O Espírito de Jesus libertar-nos-á. Aquele mesmo que impeliu Jesus para o deserto.

Descobrir a sua vocação e segui-la
Todos andamos à procura da nossa vocação, do nosso projecto de vida. Isto nem sempre é simples: pode acontecer que hesitemos por muito tempo, que façamos desvios, que cheguemos a perder-nos e que demos por nós no ponto de partida.
Mas o Espírito dá firmeza à nossa tentativa: mostra-nos o fim a alcançar e revela-nos qual é a nossa vocação. Dá-nos também o empurrãozinho nas costas que permite ultrapassar todos os pontos mortos, as hesitações, as paralisias e outras indecisões.
Foi o que aconteceu a Jesus na sinagoga de Nazaré, a aldeia da sua juventude. Se não encontrou lá a Sua profissão — Ele era carpinteiro desde o berço! —, ali descobriu a sua vocação, o que Deus queria d’Ele: “O Espírito do Senhor está sobre Mim, porque Me ungiu, para anunciar a Boa Nova aos pobres; enviou-Me a proclamara libertação aos cativos e, aos cegos, o recobrar da vista; a mandar em liberdade os oprimidos, a proclamar um ano de graça do Senhor” (Lc 4, 1 ss).
Tal é também a nossa vocação: anunciar a boa nova, proferir palavras que libertam, realizar gestos de libertação, abrir olhos, proclamar que um ano da bondade de Deus está iminente. E os nossos ouvintes predilectos são precisamente os de Jesus: os pobres, os cativos, os cegos e os oprimidos.

Um Espírito de alegria
O Espírito também realiza em Jesus algo de que temos uma necessidade urgente. Escutai: “Nesse mesmo instante, estremeceu de, alegria sob a acção do Espírito Santo e disse: 'Bendigo-Te, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e aos inteligentes e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, porque tudo isso foi do teu agrado” (Lc 10, 21).
Onde quer que o Espírito Se manifeste, brota a alegria, como na primavera os rebentos nas árvores: irresistivelmente. João estremece no seio de sua mãe, Maria entoa o seu Magnificat, os pastores partem alegremente para Belém. Depois de cada milagre e de cada perdão de pecado, irrompe um coração jubiloso de louvor.
Mas o mais impressionante de tudo é a alegria do próprio Jesus ao ver como os pequeninos e os iletrados entendem tudo, ao passo que os grandes e os sábios não conseguem compreender. Se a alegria nos abandona, se ela falta à Igreja, é necessário que nos interroguemos se somos suficientemente pequeninos e pobres. Onde estão os pequeninos, aí reina a alegria; também aí está presente o Espírito de Jesus.

O mundo às avessas
É só no episódio da morte de Jesus que descobrimos o que de mais misterioso o Espírito realiza na sua vida. Aparentemente, todo o espírito desapareceu: Ele rendeu o espírito.
Mas João vê muito mais longe. Estas palavras têm um fundamento duplo. Não é tanto que João veja o espírito ir-se embora, mas antes vê como Jesus, na e pela sua morte, sopra o Espírito Santo sobre toda a humanidade: “Ele deu o Espírito” (Jo 19, 30).
A vida surge da morte. O Espírito abala todas as evidências. Onde a morte parece triunfar, desabrocha a vida. Onde tudo parece terminar, as coisas apenas começaram. O Espírito Santo revira tudo. A partir deste momento, os prodígios não param. O Crucificado torna-Se o Salvador do mundo, Aquele que estava morto passa a ser o Vivo, e o Condenado torna-Se o Juiz. E há mais: pescadores tornam-se apóstolos, o perseguidor da jovem Igreja passa a pregador dos gentios, um pecador é papa. É muito mais forte ainda do que aquilo que ocorreu na Anunciação. Verdadeiramente, o impossível torna-se possível: a vida surge da morte e o madeiro da infâmia torna-se trono de glória.

Um Espírito de misericórdia
A última obra de Jesus — uma das últimas cenas da vida de Jesus entre nós — é a do Domingo da Ressurreição, ao entardecer. Jesus entra e diz: “A Paz seja convosco! Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: «Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos»” (Jo 20, 22 s.).
O primeiro trabalho do Espírito de Jesus é a remissão dos pecados. Muitas vezes, nos nossos dias, pensamos em primeiro lugar em coisas muito diferentes, quando nos interrogamos acerca do que Jesus veio fazer à terra. Falamos, antes de mais, de cura, de libertação, de justiça e de paz, de respeito por todas as pessoas humanas, de amor mútuo. Mas o que Jesus veio fazer como prioridade — e o que o Espírito realizou em primeiro lugar após a ressurreição — foi a remissão dos pecados. Aliás, isso estava discretamente contido no seu próprio nome: Ele chama-se Jesus (‘Deus salva’). O anjo diz a José: “... pôr-Lhe-ás o nome de Jesus; porque Ele salvará o povo dos seus pecados” (Mt 1, 21).
Sete episódios da vida de Jesus, sete obras do Espírito Santo. Sete relances sobre o que o Espírito de Jesus faz também na nossa vida. Porque as imagens da vida de Jesus são os nossos arquétipos.

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