Sábado, 31 de Dezembro de 2011

Oração de acção de graças pelo ano que termina

Graças Te damos Senhor pela Caridade
Agradecemos-Te o modo como ajudaste a conduzir as famílias aqui presentes
pelo caminho do diálogo, da harmonia, do respeito, da liberdade e do amor.
Para que continuem a amar-se na verdade.
Graças Te damos Senhor pela Esperança
Agradecemos-Te por todos os que vivem a abertura ao outro,
com altruísmo, sem preconceitos e disponíveis ao dom da fraternidade.
Para que não percam a coragem de dizer continuamente “sim”.

Graças Te damos Senhor pela Força
Agradecemos-Te pelos povos que lutam
e dão a vida por regimes mais justos e fraternos;
pelos que têm coragem de arriscar;
pelos que ousam por um bem maior;
pelos que lutam contra as desigualdades e as discriminações.

Graças Te damos Senhor pela Temperança
Agradecemos-Te por reaprendermos o significado da palavra “austeridade”;
que esta nos torne menos egoístas,
mais disponíveis e mais despertos para um mundo que precisa de mudança.

Graças Te damos Senhor pela Prudência
Agradecemos-Te pelo ano que passou,
pela família que nos preenche,
pelos amigos sempre presentes,
pela saúde, pelo trabalho,
pela paciência e perseverança
de prosseguirmos mesmo com dificuldades.

Graças Te damos Senhor pela Justiça
Pedimos-Te que ilumines os poderes político e judicial
para que os seus membros respeitem o bem público,
para que nunca se esqueçam da humildade de servir os outros
e não abusem do poder que lhes foi conferido.

Graças Te damos Senhor pela Fé
Agradecemos-Te por acreditarmos num Deus de bondade,
de amor e de justiça;
num Deus que ama tudo e todos;
num Deus disponível e dialogante.
Agradecemos-Te pelos pastores que nos guiam,
que nos indicam o caminho para Ti,
sem medo e com desassombro.
Ilumina todos os que, em Teu nome,
semeiam a discórdia, a intolerância e, por vezes, a morte.
Lembra-lhes que Tu és vida e que queres que nós tenhamos a vida em abundância.

(família Wong Castelo)
Nestes dias de Natal, a Igreja coloca-nos na primeira leitura passagens da primeira carta de São João. Nos escritos de São João há temas próprios, contrastantes, que ele vai explorando, quer no evangelho quer nas suas cartas. Nas leituras de hoje aparecem duas imagens fortes que contrastam entre si, e que são João nos apresenta como caminho em direcção a Deus.
Na primeira leitura São João falava-nos da verdade e da mentira. Dois caminhos que não se trilham ao mesmo tempo porque são antagónicos mas que também, algumas vezes, nos criam alguma confusão, porque viver é optar, é escolher. Para nós, os que somos de Cristo, há um caminho certo, indicado por Cristo, que é o caminho da verdade. A dificuldade que se nos coloca neste caminho é a de saber qual é a verdade. Mas é por aqui que se começa: conhecer a verdade. Porque esta é a linguagem de Deus, da qual Jesus foi o Verbo, a Palavra. Como Jesus diz a Pilatos, Ele vem ao mundo para dar testemunho da Verdade e todo aquele que vive da Verdade escuta a sua voz. A mentira não vem de Deus, São João também nos dizia isso. A verdade exige, portanto, fidelidade e discernimento. Quem anda na verdade terá sempre consigo força de Deus: a unção do Espírito Santo e toda a ciência.
No Evangelho outra imagem contrastante: a luz e as trevas. Jesus é a luz que ilumina o caminho da verdade. Este prólogo coloca em evidência a dupla relação e missão de Jesus: na primeira parte a sua relação com Deus e na segunda a sua relação connosco. Jesus é a Palavra de Deus, é a palavra definitiva que Deus nos dirigiu. Palavra essa que não se ficou em profecias ou em aparições mas que se faz carne, vem viver no meio de nós, para nos ajudar nas nossas alegrias e tristezas, sempre do nosso lado. Assim deve ser a nossa vida: vivida na verdade, iluminada por Cristo, numa relação fiel a Deus e aos irmãos.
Hoje é o último dia do ano. Dia de acção de graças por este ano que termina, para uns bom, para outros nem por isso… Mas virmos hoje aqui é saber que este caminho difícil conta com a presença de Deus que está connosco nos momentos de maior alegria e que nos dá força e confiança para vencer os vales tenebrosos por onde às vezes a nossa vida passa.
Os dias que vivemos são dias difíceis. Difíceis porque a verdade e a mentira parecem crescer juntos, como o trigo e o joio. As palavras não nos dão segurança, as promessas muito menos; a verdade muitas vezes vem mascarada, as boas intenções disfarçadas e as promessas de um mundo melhor uma utopia desgastada. Mas este é o mundo em que vivemos e não podemos desistir de ser a voz da verdade, da justiça e da paz.
O que neste dia podemos pedir a Deus é que nos ajude a caminhar para Ele, sempre pelo caminho da verdade, para podermos ser luz do mundo e sal da terra, como Cristo nos pede, e que as nossas relações sejam também um sinal de que é possível criar um mundo novo, baseado na verdade, no amor, na justiça e na paz.

Sexta-feira, 30 de Dezembro de 2011

Mensagem do Papa para o Dia Mundial da Paz

EDUCAR OS JOVENS PARA A JUSTIÇA E A PAZ

1. O INÍCIO DE UM NOVO ANO, dom de Deus à humanidade, induz-me a desejar a todos, com grande confiança e estima, de modo especial que este tempo, que se abre diante de nós, fique marcado concretamente pela justiça e a paz. Com qual atitude devemos olhar para o novo ano? No salmo 130, encontramos uma imagem muito bela. O salmista diz que o homem de fé aguarda pelo Senhor « mais do que a sentinela pela aurora » (v. 6), aguarda por Ele com firme esperança, porque sabe que trará luz, misericórdia, salvação. Esta expectativa nasce da experiência do povo eleito, que reconhece ter sido educado por Deus a olhar o mundo na sua verdade sem se deixar abater pelas tribulações. Convido-vos a olhar o ano de 2012 com esta atitude confiante. É verdade que, no ano que termina, cresceu o sentido de frustração por causa da crise que aflige a sociedade, o mundo do trabalho e a economia; uma crise cujas raízes são primariamente culturais e antropológicas. Quase parece que um manto de escuridão teria descido sobre o nosso tempo, impedindo de ver com clareza a luz do dia. Mas, nesta escuridão, o coração do homem não cessa de aguardar pela aurora de que fala o salmista. Esta expectativa mostra-se particularmente viva e visível nos jovens; e é por isso que o meu pensamento se volta para eles, considerando o contributo que podem e devem oferecer à sociedade. Queria, pois, revestir a Mensagem para o XLV Dia Mundial da Paz duma perspectiva educativa: « Educar os jovens para a justiça e a paz », convencido de que eles podem, com o seu entusiasmo e idealismo, oferecer uma nova esperança ao mundo. A minha Mensagem dirige-se também aos pais, às famílias, a todas as componentes educativas, formadoras, bem como aos responsáveis nos diversos âmbitos da vida religiosa, social, política, económica, cultural e mediática. Prestar atenção ao mundo juvenil, saber escutá-lo e valorizá-lo para a construção dum futuro de justiça e de paz não é só uma oportunidade mas um dever primário de toda a sociedade. Trata-se de comunicar aos jovens o apreço pelo valor positivo da vida, suscitando neles o desejo de consumá-la ao serviço do Bem. Esta é uma tarefa, na qual todos nós estamos, pessoalmente, comprometidos. As preocupações manifestadas por muitos jovens nestes últimos tempos, em várias regiões do mundo, exprimem o desejo de poder olhar para o futuro com fundada esperança. Na hora actual, muitos são os aspectos que os trazem apreensivos: o desejo de receber uma formação que os prepare de maneira mais profunda para enfrentar a realidade, a dificuldade de formar uma família e encontrar um emprego estável, a capacidade efectiva de intervir no mundo da política, da cultura e da economia contribuindo para a construção duma sociedade de rosto mais humano e solidário. É importante que estes fermentos e o idealismo que encerram encontrem a devida atenção em todas as componentes da sociedade. A Igreja olha para os jovens com esperança, tem confiança neles e encoraja-os a procurarem a verdade, a defenderem o bem comum, a possuírem perspectivas abertas sobre o mundo e olhos capazes de ver « coisas novas » (Is 42, 9; 48, 6).

Os responsáveis da educação
2. A educação é a aventura mais fascinante e difícil da vida. Educar – na sua etimologia latinaeducere – significa conduzir para fora de si mesmo ao encontro da realidade, rumo a uma plenitude que faz crescer a pessoa. Este processo alimenta-se do encontro de duas liberdades: a do adulto e a do jovem. Isto exige a responsabilidade do discípulo, que deve estar disponível para se deixar guiar no conhecimento da realidade, e a do educador, que deve estar disposto a dar-se a si mesmo. Mas, para isso, não bastam meros dispensadores de regras e informações; são necessárias testemunhas autênticas, ou seja, testemunhas que saibam ver mais longe do que os outros, porque a sua vida abraça espaços mais amplos. A testemunha é alguém que vive, primeiro, o caminho que propõe. E quais são os lugares onde amadurece uma verdadeira educação para a paz e a justiça? Antes de mais nada, a família, já que os pais são os primeiros educadores. A família é célula originária da sociedade. « É na família que os filhos aprendem os valores humanos e cristãos que permitem uma convivência construtiva e pacífica. É na família que aprendem a solidariedade entre as gerações, o respeito pelas regras, o perdão e o acolhimento do outro ».[1] Esta é a primeira escola, onde se educa para a justiça e a paz. Vivemos num mundo em que a família e até a própria vida se vêem constantemente ameaçadas e, não raro, destroçadas. Condições de trabalho frequentemente pouco compatíveis com as responsabilidades familiares, preocupações com o futuro, ritmos frenéticos de vida, emigração à procura dum adequado sustentamento se não mesmo da pura sobrevivência, acabam por tornar difícil a possibilidade de assegurar aos filhos um dos bens mais preciosos: a presença dos pais; uma presença, que permita compartilhar de forma cada vez mais profunda o caminho para se poder transmitir a experiência e as certezas adquiridas com os anos – o que só se torna viável com o tempo passado juntos. Queria aqui dizer aos pais para não desanimarem! Com o exemplo da sua vida, induzam os filhos a colocar a esperança antes de tudo em Deus, o único de quem surgem justiça e paz autênticas. Quero dirigir-me também aos responsáveis das instituições com tarefas educativas: Velem, com grande sentido de responsabilidade, por que seja respeitada e valorizada em todas as circunstâncias a dignidade de cada pessoa. Tenham a peito que cada jovem possa descobrir a sua própria vocação, acompanhando-o para fazer frutificar os dons que o Senhor lhe concedeu. Assegurem às famílias que os seus filhos não terão um caminho formativo em contraste com a sua consciência e os seus princípios religiosos. Possa cada ambiente educativo ser lugar de abertura ao transcendente e aos outros; lugar de diálogo, coesão e escuta, onde o jovem se sinta valorizado nas suas capacidades e riquezas interiores e aprenda a apreciar os irmãos. Possa ensinar a saborear a alegria que deriva de viver dia após dia a caridade e a compaixão para com o próximo e de participar activamente na construção duma sociedade mais humana e fraterna. Dirijo-me, depois, aos responsáveis políticos, pedindo-lhes que ajudem concretamente as famílias e as instituições educativas a exercerem o seu direito-dever de educar. Não deve jamais faltar um adequado apoio à maternidade e à paternidade. Actuem de modo que a ninguém seja negado o acesso à instrução e que as famílias possam escolher livremente as estruturas educativas consideradas mais idóneas para o bem dos seus filhos. Esforcem-se por favorecer a reunificação das famílias que estão separadas devido à necessidade de encontrar meios de subsistência. Proporcionem aos jovens uma imagem transparente da política, como verdadeiro serviço para o bem de todos. Não posso deixar de fazer apelo ainda ao mundo dos media para que prestem a sua contribuição educativa. Na sociedade actual, os meios de comunicação de massa têm uma função particular: não só informam, mas também formam o espírito dos seus destinatários e, consequentemente, podem concorrer notavelmente para a educação dos jovens. É importante ter presente a ligação estreitíssima que existe entre educação e comunicação: de facto, a educação realiza-se por meio da comunicação, que influi positiva ou negativamente na formação da pessoa. Também os jovens devem ter a coragem de começar, eles mesmos, a viver aquilo que pedem a quantos os rodeiam. Que tenham a força de fazer um uso bom e consciente da liberdade, pois cabe-lhes em tudo isto uma grande responsabilidade: são responsáveis pela sua própria educação e formação para a justiça e a paz.

Educar para a verdade e a liberdade
3. Santo Agostinho perguntava-se: « Quid enim fortius desiderat anima quam veritatem – que deseja o homem mais intensamente do que a verdade? ».[2] O rosto humano duma sociedade depende muito da contribuição da educação para manter viva esta questão inevitável. De facto, a educação diz respeito à formação integral da pessoa, incluindo a dimensão moral e espiritual do seu ser, tendo em vista o seu fim último e o bem da sociedade a que pertence. Por isso, a fim de educar para a verdade, é preciso antes de mais nada saber que é a pessoa humana, conhecer a sua natureza. Olhando a realidade que o rodeava, o salmista pôs-se a pensar: « Quando contemplo os céus, obra das vossas mãos, a lua e as estrelas que Vós criastes: que é o homem para Vos lembrardes dele, o filho do homem para com ele Vos preocupardes? » (Sal 8, 4-5). Esta é a pergunta fundamental que nos devemos colocar: Que é o homem? O homem é um ser que traz no coração uma sede de infinito, uma sede de verdade – não uma verdade parcial, mas capaz de explicar o sentido da vida –, porque foi criado à imagem e semelhança de Deus. Assim, o facto de reconhecer com gratidão a vida como dom inestimável leva a descobrir a dignidade profunda e a inviolabilidade própria de cada pessoa. Por isso, a primeira educação consiste em aprender a reconhecer no homem a imagem do Criador e, consequentemente, a ter um profundo respeito por cada ser humano e ajudar os outros a realizarem uma vida conforme a esta sublime dignidade. É preciso não esquecer jamais que « o autêntico desenvolvimento do homem diz respeito unitariamente à totalidade da pessoa em todas as suas dimensões »,[3] incluindo a transcendente, e que não se pode sacrificar a pessoa para alcançar um bem particular, seja ele económico ou social, individual ou colectivo. Só na relação com Deus é que o homem compreende o significado da sua liberdade, sendo tarefa da educação formar para a liberdade autêntica. Esta não é a ausência de vínculos, nem o império do livre arbítrio; não é o absolutismo do eu. Quando o homem se crê um ser absoluto, que não depende de nada nem de ninguém e pode fazer tudo o que lhe apetece, acaba por contradizer a verdade do seu ser e perder a sua liberdade. De facto, o homem é precisamente o contrário: um ser relacional, que vive em relação com os outros e sobretudo com Deus. A liberdade autêntica não pode jamais ser alcançada, afastando-se d’Ele. A liberdade é um valor precioso, mas delicado: pode ser mal entendida e usada mal. « Hoje um obstáculo particularmente insidioso à acção educativa é constituído pela presença maciça, na nossa sociedade e cultura, daquele relativismo que, nada reconhecendo como definitivo, deixa como última medida somente o próprio eu com os seus desejos e, sob a aparência da liberdade, torna-se para cada pessoa uma prisão, porque separa uns dos outros, reduzindo cada um a permanecer fechado dentro do próprio “eu”. Dentro de um horizonte relativista como este, não é possível, portanto, uma verdadeira educação: sem a luz da verdade, mais cedo ou mais tarde cada pessoa está, de facto, condenada a duvidar da bondade da sua própria vida e das relações que a constituem, da validez do seu compromisso para construir com os outros algo em comum ».[4] Por conseguinte o homem, para exercer a sua liberdade, deve superar o horizonte relativista e conhecer a verdade sobre si próprio e a verdade acerca do que é bem e do que é mal. No íntimo da consciência, o homem descobre uma lei que não se impôs a si mesmo, mas à qual deve obedecer e cuja voz o chama a amar e fazer o bem e a fugir do mal, a assumir a responsabilidade do bem cumprido e do mal praticado.[5] Por isso o exercício da liberdade está intimamente ligado com a lei moral natural, que tem carácter universal, exprime a dignidade de cada pessoa, coloca a base dos seus direitos e deveres fundamentais e, consequentemente, da convivência justa e pacífica entre as pessoas. Assim o recto uso da liberdade é um ponto central na promoção da justiça e da paz, que exigem a cada um o respeito por si próprio e pelo outro, mesmo possuindo um modo de ser e viver distante do meu. Desta atitude derivam os elementos sem os quais paz e justiça permanecem palavras desprovidas de conteúdo: a confiança recíproca, a capacidade de encetar um diálogo construtivo, a possibilidade do perdão, que muitas vezes se quereria obter mas sente-se dificuldade em conceder, a caridade mútua, a compaixão para com os mais frágeis, e também a prontidão ao sacrifício.

Educar para a justiça
4. No nosso mundo, onde o valor da pessoa, da sua dignidade e dos seus direitos, não obstante as proclamações de intentos, está seriamente ameaçado pela tendência generalizada de recorrer exclusivamente aos critérios da utilidade, do lucro e do ter, é importante não separar das suas raízes transcendentes o conceito de justiça. De facto, a justiça não é uma simples convenção humana, pois o que é justo determina-se originariamente não pela lei positiva, mas pela identidade profunda do ser humano. É a visão integral do homem que impede de cair numa concepção contratualista da justiça e permite abrir também para ela o horizonte da solidariedade e do amor.[6] Não podemos ignorar que certas correntes da cultura moderna, apoiadas em princípios económicos racionalistas e individualistas, alienaram das suas raízes transcendentes o conceito de justiça, separando-o da caridade e da solidariedade. Ora « a “cidade do homem” não se move apenas por relações feitas de direitos e de deveres, mas antes e sobretudo por relações de gratuidade, misericórdia e comunhão. A caridade manifesta sempre, mesmo nas relações humanas, o amor de Deus; dá valor teologal e salvífico a todo o empenho de justiça no mundo ».[7] « Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados » (Mt 5, 6). Serão saciados, porque têm fome e sede de relações justas com Deus, consigo mesmo, com os seus irmãos e irmãs, com a criação inteira.

Educar para a paz
5. « A paz não é só ausência de guerra, nem se limita a assegurar o equilíbrio das forças adversas. A paz não é possível na terra sem a salvaguarda dos bens das pessoas, a livre comunicação entre os seres humanos, o respeito pela dignidade das pessoas e dos povos e a prática assídua da fraternidade ».[8] A paz é fruto da justiça e efeito da caridade. É, antes de mais nada, dom de Deus. Nós, os cristãos, acreditamos que a nossa verdadeira paz é Cristo: n’Ele, na sua Cruz, Deus reconciliou consigo o mundo e destruiu as barreiras que nos separavam uns dos outros (cf. Ef 2, 14-18); n’Ele, há uma única família reconciliada no amor. A paz, porém, não é apenas dom a ser recebido, mas obra a ser construída. Para sermos verdadeiramente artífices de paz, devemos educar-nos para a compaixão, a solidariedade, a colaboração, a fraternidade, ser activos dentro da comunidade e solícitos em despertar as consciências para as questões nacionais e internacionais e para a importância de procurar adequadas modalidades de redistribuição da riqueza, de promoção do crescimento, de cooperação para o desenvolvimento e de resolução dos conflitos. « Felizes os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus » – diz Jesus no sermão da montanha (Mt 5, 9). A paz para todos nasce da justiça de cada um, e ninguém pode subtrair-se a este compromisso essencial de promover a justiça segundo as respectivas competências e responsabilidades. De forma particular convido os jovens, que conservam viva a tensão pelos ideais, a procurarem com paciência e tenacidade a justiça e a paz e a cultivarem o gosto pelo que é justo e verdadeiro, mesmo quando isso lhes possa exigir sacrifícios e obrigue a caminhar contracorrente.

Levantar os olhos para Deus
6. Perante o árduo desafio de percorrer os caminhos da justiça e da paz, podemos ser tentados a interrogar-nos como o salmista: « Levanto os olhos para os montes, de onde me virá o auxílio? » (Sal 121, 1). A todos, particularmente aos jovens, quero bradar: « Não são as ideologias que salvam o mundo, mas unicamente o voltar-se para o Deus vivo, que é o nosso criador, o garante da nossa liberdade, o garante do que é deveras bom e verdadeiro (…), o voltar-se sem reservas para Deus, que é a medida do que é justo e, ao mesmo tempo, é o amor eterno. E que mais nos poderia salvar senão o amor? ».[9] O amor rejubila com a verdade, é a força que torna capaz de comprometer-se pela verdade, pela justiça, pela paz, porque tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta (cf. 1 Cor 13, 1-13). Queridos jovens, vós sois um dom precioso para a sociedade. Diante das dificuldades, não vos deixeis invadir pelo desânimo nem vos abandoneis a falsas soluções, que frequentemente se apresentam como o caminho mais fácil para superar os problemas. Não tenhais medo de vos empenhar, de enfrentar a fadiga e o sacrifício, de optar por caminhos que requerem fidelidade e constância, humildade e dedicação. Vivei com confiança a vossa juventude e os anseios profundos que sentis de felicidade, verdade, beleza e amor verdadeiro. Vivei intensamente esta fase da vida, tão rica e cheia de entusiasmo. Sabei que vós mesmos servis de exemplo e estímulo para os adultos, e tanto mais o sereis quanto mais vos esforçardes por superar as injustiças e a corrupção, quanto mais desejardes um futuro melhor e vos comprometerdes a construí-lo. Cientes das vossas potencialidades, nunca vos fecheis em vós próprios, mas trabalhai por um futuro mais luminoso para todos. Nunca vos sintais sozinhos! A Igreja confia em vós, acompanha-vos, encoraja-vos e deseja oferecer-vos o que tem de mais precioso: a possibilidade de levantar os olhos para Deus, de encontrar Jesus Cristo – Ele que é a justiça e a paz.

Oh vós todos, homens e mulheres, que tendes a peito a causa da paz! Esta não é um bem já alcançado mas uma meta, à qual todos e cada um deve aspirar. Olhemos, pois, o futuro com maior esperança, encorajemo-nos mutuamente ao longo do nosso caminho, trabalhemos para dar ao nosso mundo um rosto mais humano e fraterno e sintamo-nos unidos na responsabilidade que temos para com as jovens gerações, presentes e futuras, nomeadamente quanto à sua educação para se tornarem pacíficas e pacificadoras! Apoiado em tal certeza, envio-vos estas refl exões que se fazem apelo: Unamos as nossas forças espirituais, morais e materiais, a fim de « educar os jovens para a justiça e a paz ».
Vaticano, 8 de Dezembro de 2011.
BENEDICTUS PP XVI

Notas: [1] Bento XVI, Discurso aos administradores da Região do Lácio, do Município e da Província de Roma (14 de Janeiro de 2011): L’Osservatore Romano (ed. port. de 22/I/2011), 5. [2] Comentário ao Evangelho de S. João, 26, 5. [3] Bento XVI, Carta enc. Caritas in veritate (29 de Junho de 2009), 11: AAS 101 (2009), 648; cf. Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio (26 de Março de 1967), 14: AAS 59 (1967), 264. [4] Bento XVI, Discurso por ocasião da abertura do Congresso eclesial diocesano na Basílica de São João de Latrão (6 de Junho de 2005): AAS 97 (2005), 816. [5] Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, 16. [6] Cf. Bento XVI, Discurso no Parlamento federal alemão (Berlim, 22 de Setembro de 2011):L’Osservatore Romano (ed. port. de 24/IX/2011), 4-5. [7] Bento XVI, Carta enc. Caritas in veritate (29 de Junho de 2009), 6: AAS 101 (2009), 644-645. [8] Catecismo da Igreja Católica, 2304. [9] Bento XVI, Homilia durante a vigília com os jovens (Colónia, 20 de Agosto de 2005): AAS97 (2005), 885-886. © Copyright 2011 - Libreria Editrice Vaticana

Domingo, 25 de Dezembro de 2011

Homilia da Missa da Noite de Natal

Uma das imagens mais fortes no cristianismo é a da luz, muitas vezes representada na vela. Há, pelo menos duas velas com grande significado, para nós, cristãos: a que se acende na noite de Páscoa e a que se acende no dia do nosso batismo.
A luz é também o tema desta noite de Natal, uma luz que hoje se acende, tão forte que nem as trevas conseguem apagar. Esta luz é Cristo.
Ligado à simbólica da luz aparece também nesta noite um sentimento forte, também comum, que é o da alegria. Na primeira leitura Isaías convidava-nos à alegria porque os que andavam nas trevas viram uma grande luz; no Evangelho escutámos os Anjos, que anunciam uma alegria aos pastores: a alegria do nascimento de um Menino que irradia luz.
Esta luz não brilhou em Roma, a capital do império, nem em Jerusalém, a capital da Judeia, mas sim numa pequena cidade, Belém, a mais pequena das cidades de Judá.
Esta luz não nasceu num palácio ou num castelo, mas sim numa pequena gruta, desapercebida ao olhar dos poderosos e que têm casa, mas revelada a uns pastores que passavam a noite no campo a guardar os seus rebanhos.
Toda uma lógica contrária ao que seria expetável. Como pode o filho de Deus nascer numa gruta, sem casa nem cama?
Hoje não nos nasceu um imperador ou um governador importante, mas sim o Messias, o prometido e o Enviado de Deus. E este acontecimento, que marcou e mudou o desenrolar da História, é o motivo de alegria para nós, que acreditamos neste Messias, luz e alegria das nossas vidas.
Com mais ou menos consciência, com mais ou menos fé, é esta luz que nos fez reunir hoje em família ou em comunidade, que nos faz trocar as prendas, que nos faz congregar nesta noite, como comunidade crente que celebra com alegria esta luz de Deus que vem iluminar, esclarecer as noites do mundo e as noites da nossa vida.
Celebramos uma luz que se acendeu há dois mil e onze anos mas que continua acesa, apesar dos ventos que a tentam apagar ou dos olhos que dela desviam o seu olhar. Ela lá está, como a fragilidade e a força de um bebé que nasce. Uma luz que não se impõe, uma luz que se tem de procurar e ir ao encontro. Uma luz que nos faz sair das monotonias das nossas vidas e dos nossos vícios. As duas leituras diziam-nos quem é Jesus e qual é a sua importância na nossa vida: a leitura de Isaías dizia que este Menino que Deus nos deu é “Conselheiro admirável, Deus forte, Pai eterno, Príncipe da paz”. Ou seja, é aquele que nos ilumina, que nos dá força, que dá sentido à nossa vida e nos traz a paz. Na segunda leitura São Paulo dizia que esta luz nos ajuda a renunciar ao mal, e a vivermos na verdade de Deus e na prática das boas obras.
Vemos, então, que esta luz não se apaga e que a devemos manter acesa na nossa vida. Mas, se o presépio se imortalizou naquela gruta de Belém, hoje, ao olharmos para o presépio, reparamos que há trevas que precisam de ser iluminadas: as trevas da pobreza escondida, as trevas da solidão, as trevas das injustiças, as trevas do desamor.
E hoje temos de ser nós, os que acreditamos na força desta luz, os que temos de iluminar estas grutas escuras do egoísmo e da ausência de Deus. Esta luz, além de ser uma luz de alegria tem de ser também portadora de esperança.
Demos, portanto, graças a Deus, nesta noite, pelos dons que nos concede; por ser a luz das nossas vidas, por se ter feito um de nós, por caminhar connosco mesmo quando as nossas trevas teimam em ser mais fortes que esta luz.
E peçamos também, por todos os que nesta noite não sentem a força e a presença de Deus. Que Deus a todos nos ilumine e aqueça com a força e a luz do seu amor. Que assim seja.

Sábado, 24 de Dezembro de 2011

Jesus não é um estra-terrestre

(Artigo de Natal de fr. Bento Domingues, op )
1. Sempre existiram e continuam a existir diversas correntes no seio do cristianismo que desvalorizam, ou até negam, a condição humana de Jesus Cristo.
Para essas tendências, o divino e o humano são rivais: dar muito a um é roubar o outro. Mesmo a bela conclusão trinitária das orações da Missa parece mais preocupada com a confissão da divindade de Jesus – “que é Deus convosco” – do que com nome bíblico, Emanuel – “Deus connosco” - luz da esperança humana (Mt 1.23).
Ao longo dos últimos duzentos anos, a exegese histórico-crítica do Novo Testamento passou por diversas fases, na procura da identidade de Jesus. Depois de um período de desalento, as investigações do contexto económico, social, cultural, religioso e político em que Jesus nasceu e cresceu, desenhavam a sua identidade a partir das rupturas com esse mundo. A “terceira vaga” de estudos concentra-se no que há de mais óbvio, embora pouco sublinhado: Jesus é um judeu da Palestina, mais ou menos marginal, dentro de um judaísmo em crise, com várias tendências e grupos (saduceus, fariseus, zelotas, essénios terapeutas, baptistas, etc.), sob ocupação romana.
Alguns temas e figuras desse judaísmo agitado – mestre (rabino), profeta, pregador apocalíptico, terapeuta, etc., – surgem como índices de continuidade e de afinidade de Jesus com certas correntes do seu tempo. Se antes predominava uma identidade de Jesus construída a partir das suas rupturas, esta tende agora a diluir-se, sem que seja possível perceber porque razão foi Ele morto pelo poder romano, mas, aparentemente, para serenar clamorosas exigências judaicas. O que haveria de insuportável nesse nazareno?
Em vez do paradigma do pêndulo - passagem de um extremo ao outro -, ignorando a resistência da realidade nas suas diversas expressões, é preferível insistir no modelo dialéctico do tear que integra sempre os extremos no tecido de novas sínteses. É em continuidade com a tradição, sempre problematizada, que Jesus introduz uma novidade na aventura humana, que cada vez me espanta mais e que encontramos nas narrativas dos Evangelhos e que mostram as suas múltiplas manifestações.
2. S. Paulo procurou sintetizar essa novidade, que recebeu dos discípulos de Jesus, mas que ele sempre reivindicou como experiência própria da presença da graça do Ressuscitado.
Numa dessas sínteses de descompartimentação do mundo, tem uma expressão lapidar: Com Jesus Cristo não há separação entre judeu e grego, escravo e livre, homem e mulher (Gl.3.28). Podemos, hoje, observar muitos outros muros, construídos e em construção que, por fidelidade ao Evangelho, é preciso denunciar e abater.
Chegámos ao século XXI como herdeiros, pouco agradecidos, dos valores da modernidade: liberdade, igualdade, fraternidade e laicidade. Parecem-me indiscutíveis as suas raízes cristãs, embora dentro e fora da Igreja, mesmo depois da Declaração dos Direitos Humanos, esses direitos continuem, mais invocados do que praticados.
Pode-se perguntar: se Jesus não tinha nenhum programa económico, financeiro e político de conquista e exercício do poder, porque razão inquietou tanto a sociedade do seu tempo? Anunciava a proximidade do Reino de Deus, de um Deus que nunca ninguém viu. Era, no entanto, a sua experiência e convívio com o Mistério inabarcável que O impedia de olhar “só para cima”. A sua experiência de Deus impunha-lhe “olhar para o lado”, para os excluídos do convívio humano, por razões religiosas, económicas, culturais ou políticas. A sua fé, a sua oração, os seus retiros não lhe fechavam os olhos. Abriam-no para as alegrias e sofrimentos do mundo.
3. O clero tinha sempre as homilias desta época mais ou menos prontas. Além de outros temas óbvios, o que nunca podia faltar era a denúncia do Natal consumista, nem sempre a despropósito. Este ano - para o próximo prometem pior -, só por um grande sentido de humor negro é que essa pregação poderia fazer sentido.
Somos acusados de ter vivido acima das nossas possibilidades. Creio que nem todos. Alguns, percentualmente poucos, são tão ricos que só conseguem viver abaixo das suas possibilidades. Seja como for, João Baptista, o austero e pregador de austeridade, desencorajou o próprio Jesus Cristo que escolheu outro caminho. Ele veio para que “tivéssemos vida e vida em abundância”.
Faz hoje 50 anos da convocatória do Concílio do Vaticano II, a grande revolução traída da Igreja do século XX. A Gaudium et Spes, (nº 69), lembra o que a civilização em que vivemos, despreza: “Deus, destinou a terra e tudo o que ela contém para uso de todos os seres humanos e de todos os povos, de sorte que os bens criados devem chegar, equitativamente, às mãos de todos, segundo a regra da justiça inseparável da caridade”, da gratuidade do amor. Esta globalização é um bocado diferente daquela a que assistimos. Esta deixa quase tudo em mãos de poucos. Cava o abismo crescente entre ricos e pobres. Há cinco séculos, Frei António de Montesinos, O.P., de olhos postos nos Índios, explorados e dizimados, perguntava do púlpito aos seus conterrâneos exploradores: “E estes não são Homens?” Parece que nem Jesus Cristo nem Montesinos eram extra-terrestres.
Boas Festas.

Segunda-feira, 19 de Dezembro de 2011

Homilia do IV Domingo do Advento

Chegámos ao último domingo do Advento. Às portas do Natal, aparece-nos na liturgia de hoje a figura de Maria, no seu sim obediente a Deus. Mas antes de falarmos da figura de Maria em tempo de Advento, gostaria de vos falar ainda da passagem do livro de Samuel, um livro histórico, enquadrada num momento concreto da vida do povo de Israel.
David, o conquistador, depois de guerras vencidas e de estabilidade política, mora numa bela casa. Dá-se conta que a arca de Deus ainda está numa tenda. E quer construir um palácio para Deus. Esta passagem da Escritura abre-me duas linhas de leitura, uma relacionada com a nossa vida e a outra com o sentido do Natal que se aproxima.
Às vezes, na nossa vida, Deus aparece no fim de tudo. David instalou-se e depois é que se lembrou de instalar Deus, representado na arca, num palácio, o futuro templo de Jerusalém. Deus não ficou chateado por ser a última coisa em que David pensou. Deus gosta de tendas. Aliás, o sentido bíblico da tenda é muito importante. Deus é peregrino, nómada, e gosta de viver numa tenda. Era assim que viviam os pobres e os desprotegidos. A imagem da tenda prende-se ainda com a incarnação e com a nossa humanidade. Quando São João, no seu Evangelho, diz que o verbo se fez carne e habitou entre nós, uma possível tradução, mais à letra, seria a de que fez uma tenda entre nós, ou seja, que veio acampar na nossa humanidade, tornou-se um igual a nós, o que nos vem dar a ideia da proximidade de Deus para connosco. Mas também é imagem da fragilidade da nossa vida. São Paulo, nos seus textos, compara a existência humana a uma tenda que hoje se monta e amanhã se desmonta. Mas voltemos ao texto. Deus não fica chateado com David por ter sido a última coisa em que pensou.
Mas lembra-lhe que esteve presente em todos os momentos prósperos da sua vida. E que não é ele quem vai construir-lhe uma casa, um templo, mas o contrário: Deus é que lhe vai construir uma casa, uma dinastia, dando-lhe um descendente que estará intimamente ligado a Deus. Nós sabemos quem é este descendente de David. Jesus, de acordo com a genealogia de Mateus e de Lucas, é da descendência de David, é o Filho de David, como o aclamam em Jerusalém, e nasce em Belém, porque é a cidade onde David nasceu.
Nasceu de Maria. Ela é a tenda escolhida por Deus para habitar entre nós. Deste relato evangélico gostava só de sublinhar o seguinte aspeto: o anúncio do nascimento de Jesus é uma boa-notícia, uma notícia alegre. Uma tradução possível do Salvé, ó cheia de Graça, poderia ser o de Alegra-te! E é esta alegria da nossa vida que nós preparamos e que iremos celebrar no próximo.
Neste domingo, em que o Anjo nos alegra com a notícia do nascimento de Jesus, rezamos a oração de um coral de Bach, escrito inicialmente para uma cantata do IV Domingo do Advento, com o título “Jesus, alegria dos homens”:
Jesus sê minha alegria,
o conforto e a seiva do meu coração.
Jesus vence a minha tristeza,
és a força da minha vida
és o gosto e o sol dos meus olhos,
o tesouro e a grande felicidade da minha alma,
por isso, não te deixarei sair do meu coração e da minha presença.

Sou feliz, porque tenho Jesus.
Oh, como o tenho tão seguro,
para que traga alívio ao meu coração,
quando estou triste e abatido.
Eu tenho a Jesus, que me ama e cuida de mim.
Por isso não o abandonarei,
mesmo se o meu coração se despedaçar.

Terça-feira, 13 de Dezembro de 2011

Antologia poético-teológica - 26

"Aquele que ama a Deus não cuida de lágrimas nem de admiração; esuqece o sofrimentono amor e tão completamente o esquece que não ficaria dele o menor traço da sua dor, seo próprio Deus se não recordasse. Pois ele vêno segredo, conhece a tristeza e a desolação, conta as nossas lágrimas e nada esquece."
(Kierkgaard, Temor e tremor)

Domingo, 4 de Dezembro de 2011

Homilia do II Domingo do Advento

Apesar de termos começado na semana passada um novo ano litúrgico e, em cada ano, temos também uma versão do evangelho, só hoje começámos com São Marcos, que irá ser o nosso evangelista. A palavra Evangelho, é uma palavra grega que significa boa nova, boa notícia. Como é uma palavra importante para nós, cristãos, não a traduzimos, sob pena de acabarmos por não fazer a distinção entre Evangelho/boa-nova e evangelhos/livros. Porque essa foi a intenção dos evangelistas: transmitir-nos uma boa noticia que mais que uma reportagem ou um romance histórico, é uma pessoa: Jesus Cristo. E, em todos os evangelistas, aparece uma mesma ideia: com Jesus começa um tempo novo.
São Marcos foi o primeiro evangelista, o primeiro que nos transmitiu a vida de Jesus. Ao mesmo tempo quem foi Jesus e o que é que ele nos ensinou. E, enquanto que Mateus começa o seu Evangelho com uma genealogia e Lucas com a anunciação do anjo a Zacarias, Marcos começa com a figura de João Batista. João Batista é uma figura 'estranha', misteriosa, controversa. Ele é um homem austero, que não procura protagonismos, desviando as atenções para aquele que virá depois dele porque será mais forte do que ele e que batizará no verdadeiro baptismo, o do Espírito. Aparece nas margens do Jordão para despertar as pessoas.
Curiosamente, enquanto João é o homem do deserto, Jesus será o homem da cidade. Enquanto que, com João as pessoas vão ao deserto para o escutar, Jesus irá ao encontro das pessoas, para lhes levar uma boa notícia. Enquanto que João apela à conversão, Jesus vai levar a salvação. Mas estes domingos têm João como protagonista.
Aparece-nos no Advento, para que possamos preparar o nosso coração para acolher Jesus. João é a voz que clama no deserto das nossas vidas, das nossas sociedades, para nos indicar os caminhos da justiça e da verdade. João, na sequência de Isaías, vem apontar-nos a consolação de Deus, revelada em Jesus Cristo. Vem dizer-nos que, para acolher Deus temos de preparar o caminho, aplanar as montanhas do nosso egoísmo e da nossa injustiça para que o Senhor nos encontre numa vida santa - a vida do Evangelho - e em paz.
Como diziam os Padres da Igreja, João era a voz e Jesus a Palavra. João é este enviado de Deus e próximo de Jesus Cristo, que faz contrastar a nossa vida com o Evangelho. Por isso, de João podemos tirar duas atitudes para a nossa vida: por um lado, e na sequência da primeira leitura e do evangelho, a prepararmos a nossa vida para o acolhimento de Jesus, da sua vida e da sua boa-nova. Mas por outro, somos também nós chamados a ser a voz que brada no deserto, através da denúncia de injustiça, que não podemos calar, acompanhada com a nossa coerência de vida. Ser cristão, hoje, não é só saber manejar a Bíblia e saber algumas partes de cor. Ser cristão hoje é pôr em prática o que a Bíblia nos diz, continuando cada um de nós o caminho da esperança e da verdade, preparado pelos profetas e inaugurado e percorrido por Jesus.
A caminho do Natal, peçamos aos Senhor esta coragem de sermos hoje a voz do Evangelho. Cada um de nós é chamado a ser profeta, levando ao mundo os valores e atitudes que o dignificam.

Celebração dos 500 anos do Sermão de fr. António de Montesinos

Foi no IV Domingo do Advento do ano de 1511 que na ilha de Santo Domingo de La Hispaniola, actual República Dominicana e Haiti, que fr. António de Montesinos, em nome da Comunidade, prega um sermão em que defende os direitos dos Índios: “com que direito e com que justiça tendes estes índios em tão cruel e horrível servidão? Com que autoridade fizestes tão detestáveis guerras a estas gentes que estavam nas suas terras, mansas e pacíficas, onde consumistes um número infindável delas com mortes e estragos nunca ouvidos? Como é que os tendes tão oprimidos e esgotados, sem lhes dar de comer nem curar as suas doenças, que pelos excessivos trabalhos a que os sujeitais vos morrem, melhor será dizer, os matais, para arrancarem e, conseguirem ouro todos os dias. E que cuidado tendes em que sejam doutrinados e conheçam o seu Deus e criador, sejam baptizados, oiçam missa, guardem as festas e domingos? Estes não são homens? Não têm almas racionais? Não sois obrigados a amá-los como a vós mesmos? Não entendeis isto?”.
Este sermão, Recolhido por fr. Bartolomeu de Las Casas, na sua História das Índias, tornou-se o grande testemunho de uma Igreja perto dos pobres e dos indefesos, abrindo uma dimensão profética da justiça e paz.
Nós, Dominicanos, iremos assinalar este acontecimento, quinhentos anos depois, nas mesmas datas litúrgicas e históricas, com as seguintes actividades:
17 DE DEZEMBRO
Retiro de Advento (das 9.30h às 18h) Tema: Por caminhos da justiça e da verdade
Conferências: «É pela sede que se aprende a água? - O paradoxal caminho das Bem-aventuranças» P. Tolentino Mendonça «O Sermão de Montesinos, hoje, aqui e agora: algumas perguntas, desafios e tarefas» fr. Rui Grácio, op (Inscrição no retiro até dia 15 de Dezembro: 15 euros)
18 DE DEZEMBRO
IV Domingo do Advento (dia litúrgico) 12h – Missa do IV Domingo do Advento. Distribuição de um pequeno livro com o Sermão de António de Montesinos.
19 DE DEZEMBRO
21h – Exibição do filme “También la lluvia”, de Icíar Bollaín, com Gael García Bernal, Luis Tosar e Karra Elejalde. (Este filme faz alusão ao sermão de Montesinos). (entrada livre)
21 DE DEZEMBRO
Sermão de Montesinos (dia histórico) 21.30h – Leitura do Sermão de António de Montesinos, recolhido por fr. Bartolomeu de Las Casas. Leitor: Luís Miguel Cintra. Durante a leitura serão cantadas algumas peças gregorianas de Advento. (entrada livre)

Local: Convento de São Domingos Rua João de Freitas Branco, 12 Informações tel.: 210 322 300