Segunda-feira, 27 de Fevereiro de 2012

Homilia do I Domingo da Quaresma

Começámos na passada quarta-feira a Quaresma. Quarenta dias de preparação para a Páscoa, a grande festa dos cristãos, em que celebramos a Ressurreição de Jesus.
A simbologia deste número, que se relaciona com muitos episódios do Antigo Testamento mas, sobretudo, com este de Jesus no deserto, marca um ritmo penitencial de toda a Igreja ao encontro de Deus.
O primeiro domingo da Quaresma é sempre marcado pelo relato das tentações de Cristo. Este Evangelho, diferentemente do de Mateus e Lucas, não nos diz muito sobre estes quarenta dias de Jesus. Apenas nos diz que foi o Espírito Santo que o conduziu ao deserto, que lá foi tentado por Satanás e que convivia com animais selvagens. Não sabemos muito mais. Mas desta pequena descrição já podemos tirar muito para a nossa vida. Porque Jesus é, para nós, um mestre e exemplo de como viver em Deus.
A ida de Jesus para o deserto não foi por sua própria iniciativa. O Evangelho é claro: Jesus foi impelido pelo Espírito Santo. Jesus foi tentado por Satanás. Não pecou mas foi tentado. Sentiu, como nós sentimos, a força do mal nas nossas vidas. Como é que Jesus suportou estes dias de solidão? Certamente pela sua grande confiança em Deus e pela obediência à sua vontade. Jesus não foi só tentado nestes dias. Vemos como, ao longo da sua vida, várias tentações lhe aparecem, e mesmo na cruz lhe aparece a última tentação que Jesus rejeita com a oração.
Creio que não será exagerado compararmos a nossa vida com este episódio do Evangelho. Porque a nossa vida é, por vezes, um deserto, no que tem de bom e de mau (lembremos que o deserto é, ao mesmo tempo, o tempo das dificuldades, mas também o lugar onde Deus se revela). E o grande convite que nos é feito é deixamos guiar a nossa vida pelo Espírito Santo. Sabemos também que a nossa vida é semeada de coisas muito boas, mas também sentimos todos que, por vezes, as forças do mal querem falar mais alto do que o bem que há em nós. E também aqui o exemplo de Jesus – o exemplo de confiança e fidelidade – nos pode ser útil, não desistindo de procurar sempre o bem e de vivermos mais conscientemente o Evangelho.
Na quarta-feira passada, começámos a quaresma com o rito da imposição das cinzas. A cada um de nós foi dita a mesma frase com que se Jesus começou o seu ministério: Arrepende-te e acredita no Evangelho. A partir desta pregação de Jesus vemos que tudo o que ele diz e faz é para que a nossa vida mude e acreditemos na boa nova que ele é na nossa vida. Esta caminhada quaresmal, que é imagem da nossa vida, faz-se em comunidade.
Toda a Igreja, com mais consciência neste tempo, entra num caminho de arrependimento e purificação, como sinal de conversão e de adesão a Jesus Cristo. Não fiquemos parados.
Neste tempo de redescoberta do perdão e da misericórdia de Deus, entremos na barca construída por Noé, sinal da Igreja, e deixemo-nos conduzir pelo Espírito Santo, para que Deus seja o nosso Deus e a sua Palavra a força que nos liberta do mal e nos conduz à Páscoa.

1 comentários:

  1. Fr Filipe, nunca me canso de reler o que aqui partilha, saberá um dia o porquê. Sou sobrinha da Irmã Graça Maria. Descobri o seu espaço por ocasião do falecimento do nosso querido Frei Carlos Furtado.
    Adiante, regressei a este post a propósito de algo que deu ontem no noticiário cuja legenda era "muitos Cristãos não compreendem o significado do jejum e continuam a comer carne".
    Fr. Filipe, não estará a própria comunicação social equivocada a respeito do jejum da quaresma? A transmissão desta notícia deixou-me particularmente triste, por transmitir uma ideia completamente errada sobre o significado do jejum, até entre os próprios cristãos que não tentam aprofundar o âmago da História de Jesus.

    Muitas vezes é a própria vida que nos propõe jejuns. Tantas coisas que julgamos possuir e de repente parece que nos fogem. Deixam no seu lugar um sentimento de vazio, de deserto.
    Às vezes esse vazio vem sem avisar, outras vezes pergunta-nos se pode entrar. Questiono-me se devo deixar livre as pessoas com quem me relaciono, se devo optar por soltar algo que não me deixa caminhar, ser eu? Acabar com as ilusões e optar por amar a realidade tal como é...
    Mas a proposta da Páscoa não é ficarmos no deserto, mesmo quando se trata de opções que nos ajudam a crescer, a ser livres.
    O deserto só nos fará crescer realmente se o descobrimos habitado. Habitado por Outro que é totalmente Amor e que quer que vivamos em abundância.
    Uma meditação que não se reduz ao jejum da carne.

    Abraço fraterno.

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