Segunda-feira, 27 de Fevereiro de 2012

Homilia do I Domingo da Quaresma

Começámos na passada quarta-feira a Quaresma. Quarenta dias de preparação para a Páscoa, a grande festa dos cristãos, em que celebramos a Ressurreição de Jesus.
A simbologia deste número, que se relaciona com muitos episódios do Antigo Testamento mas, sobretudo, com este de Jesus no deserto, marca um ritmo penitencial de toda a Igreja ao encontro de Deus.
O primeiro domingo da Quaresma é sempre marcado pelo relato das tentações de Cristo. Este Evangelho, diferentemente do de Mateus e Lucas, não nos diz muito sobre estes quarenta dias de Jesus. Apenas nos diz que foi o Espírito Santo que o conduziu ao deserto, que lá foi tentado por Satanás e que convivia com animais selvagens. Não sabemos muito mais. Mas desta pequena descrição já podemos tirar muito para a nossa vida. Porque Jesus é, para nós, um mestre e exemplo de como viver em Deus.
A ida de Jesus para o deserto não foi por sua própria iniciativa. O Evangelho é claro: Jesus foi impelido pelo Espírito Santo. Jesus foi tentado por Satanás. Não pecou mas foi tentado. Sentiu, como nós sentimos, a força do mal nas nossas vidas. Como é que Jesus suportou estes dias de solidão? Certamente pela sua grande confiança em Deus e pela obediência à sua vontade. Jesus não foi só tentado nestes dias. Vemos como, ao longo da sua vida, várias tentações lhe aparecem, e mesmo na cruz lhe aparece a última tentação que Jesus rejeita com a oração.
Creio que não será exagerado compararmos a nossa vida com este episódio do Evangelho. Porque a nossa vida é, por vezes, um deserto, no que tem de bom e de mau (lembremos que o deserto é, ao mesmo tempo, o tempo das dificuldades, mas também o lugar onde Deus se revela). E o grande convite que nos é feito é deixamos guiar a nossa vida pelo Espírito Santo. Sabemos também que a nossa vida é semeada de coisas muito boas, mas também sentimos todos que, por vezes, as forças do mal querem falar mais alto do que o bem que há em nós. E também aqui o exemplo de Jesus – o exemplo de confiança e fidelidade – nos pode ser útil, não desistindo de procurar sempre o bem e de vivermos mais conscientemente o Evangelho.
Na quarta-feira passada, começámos a quaresma com o rito da imposição das cinzas. A cada um de nós foi dita a mesma frase com que se Jesus começou o seu ministério: Arrepende-te e acredita no Evangelho. A partir desta pregação de Jesus vemos que tudo o que ele diz e faz é para que a nossa vida mude e acreditemos na boa nova que ele é na nossa vida. Esta caminhada quaresmal, que é imagem da nossa vida, faz-se em comunidade.
Toda a Igreja, com mais consciência neste tempo, entra num caminho de arrependimento e purificação, como sinal de conversão e de adesão a Jesus Cristo. Não fiquemos parados.
Neste tempo de redescoberta do perdão e da misericórdia de Deus, entremos na barca construída por Noé, sinal da Igreja, e deixemo-nos conduzir pelo Espírito Santo, para que Deus seja o nosso Deus e a sua Palavra a força que nos liberta do mal e nos conduz à Páscoa.

Sábado, 25 de Fevereiro de 2012

Antologia poético-teológica - 33

Quando a razão natural, o testemunho da Lei e dos profetas, o ensinamento dos Apóstolos e dos seus sucessores, conduziram um homem, como que pela mão, até ao acto de fé, pode esse homem dizer, então, que não foi nenhum dos motivos precedentes, que não foi a razão natural, que não foi o ensinamento dos homens que o fizeram crer, mas somente a Verdade primeira por si mesma.
(S. Tomás de Aquino, Comentário sobre São João)

Quarta-feira, 22 de Fevereiro de 2012

Mensagem do Papa para a Quaresma de 2012

«Prestemos atenção uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras»
(Heb 10, 24)
Irmãos e irmãs! A Quaresma oferece-nos a oportunidade de refletir mais uma vez sobre o cerne da vida cristã: o amor. Com efeito este é um tempo propício para renovarmos, com a ajuda da Palavra de Deus e dos Sacramentos, o nosso caminho pessoal e comunitário de fé. Trata-se de um percurso marcado pela oração e a partilha, pelo silêncio e o jejum, com a esperança de viver a alegria pascal.
Desejo, este ano, propor alguns pensamentos inspirados num breve texto bíblico tirado da Carta aos Hebreus: «Prestemos atenção uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras» (10, 24). Esta frase aparece inserida numa passagem onde o escritor sagrado exorta a ter confiança em Jesus Cristo como Sumo-sacerdote, que nos obteve o perdão e o acesso a Deus. O fruto do acolhimento de Cristo é uma vida edificada segundo as três virtudes teologais: trata-se de nos aproximarmos do Senhor «com um coração sincero, com a plena segurança da fé» (v. 22), de conservarmos firmemente «a profissão da nossa esperança» (v. 23), numa solicitude constante por praticar, juntamente com os irmãos, «o amor e as boas obras» (v. 24). Na passagem em questão afirma-se também que é importante, para apoiar esta conduta evangélica, participar nos encontros litúrgicos e na oração da comunidade, com os olhos fixos na meta escatológica: a plena comunhão em Deus (v. 25). Detenho-me no versículo 24, que, em poucas palavras, oferece um ensinamento precioso e sempre atual sobre três aspetos da vida cristã: prestar atenção ao outro, a reciprocidade e a santidade pessoal.
1. «Prestemos atenção»: a responsabilidade pelo irmão. O primeiro elemento é o convite a «prestar atenção»: o verbo grego usado é katanoein, que significa observar bem, estar atento, olhar conscienciosamente, dar-se conta de uma realidade. Encontramo-lo no Evangelho, quando Jesus convida os discípulos a «observar» as aves do céu, que não se preocupam com o alimento e todavia são objeto de solícita e cuidadosa Providência divina (cf. Lc 12, 24), e a «dar-se conta» da trave que têm na própria vista antes de reparar no argueiro que está na vista do irmão (cf. Lc 6, 41). Encontramos o referido verbo também noutro trecho da mesma Carta aos Hebreus, quando convida a «considerar Jesus» (3, 1) como o Apóstolo e o Sumo-sacerdote da nossa fé. Por conseguinte o verbo, que aparece na abertura da nossa exortação, convida a fixar o olhar no outro, a começar por Jesus, e a estar atentos uns aos outros, a não se mostrar alheio e indiferente ao destino dos irmãos. Mas, com frequência, prevalece a atitude contrária: a indiferença, o desinteresse, que nascem do egoísmo, mascarado por uma aparência de respeito pela «esfera privada». Também hoje ressoa, com vigor, a voz do Senhor que chama cada um de nós a cuidar do outro. Também hoje Deus nos pede para sermos o «guarda» dos nossos irmãos (cf. Gn 4, 9), para estabelecermos relações caracterizadas por recíproca solicitude, pela atenção ao bem do outro e a todo o seu bem. O grande mandamento do amor ao próximo exige e incita a consciência a sentir-se responsável por quem, como eu, é criatura e filho de Deus: o facto de sermos irmãos em humanidade e, em muitos casos, também na fé deve levar-nos a ver no outro um verdadeiro alter ego, infinitamente amado pelo Senhor. Se cultivarmos este olhar de fraternidade, brotarão naturalmente do nosso coração a solidariedade, a justiça, bem como a misericórdia e a compaixão. O Servo de Deus Paulo VI afirmava que o mundo atual sofre sobretudo de falta de fraternidade: «O mundo está doente. O seu mal reside mais na crise de fraternidade entre os homens e entre os povos, do que na esterilização ou no monopólio, que alguns fazem, dos recursos do universo» (Carta enc. Populorum progressio, 66).
A atenção ao outro inclui que se deseje, para ele ou para ela, o bem sob todos os seus aspetos: físico, moral e espiritual. Parece que a cultura contemporânea perdeu o sentido do bem e do mal, sendo necessário reafirmar com vigor que o bem existe e vence, porque Deus é «bom e faz o bem» (Sal 119/118, 68). O bem é aquilo que suscita, protege e promove a vida, a fraternidade e a comunhão. Assim a responsabilidade pelo próximo significa querer e favorecer o bem do outro, desejando que também ele se abra à lógica do bem; interessar-se pelo irmão quer dizer abrir os olhos às suas necessidades. A Sagrada Escritura adverte contra o perigo de ter o coração endurecido por uma espécie de «anestesia espiritual», que nos torna cegos aos sofrimentos alheios. O evangelista Lucas narra duas parábolas de Jesus, nas quais são indicados dois exemplos desta situação que se pode criar no coração do homem. Na parábola do bom Samaritano, o sacerdote e o levita, com indiferença, «passam ao largo» do homem assaltado e espancado pelos salteadores (cf. Lc 10, 30-32), e, na do rico avarento, um homem saciado de bens não se dá conta da condição do pobre Lázaro que morre de fome à sua porta (cf. Lc 16, 19). Em ambos os casos, deparamo-nos com o contrário de «prestar atenção», de olhar com amor e compaixão. O que é que impede este olhar feito de humanidade e de carinho pelo irmão? Com frequência, é a riqueza material e a saciedade, mas pode ser também o antepor a tudo os nossos interesses e preocupações próprias. Sempre devemos ser capazes de «ter misericórdia» por quem sofre; o nosso coração nunca deve estar tão absorvido pelas nossas coisas e problemas que fique surdo ao brado do pobre. Diversamente, a humildade de coração e a experiência pessoal do sofrimento podem, precisamente, revelar-se fonte de um despertar interior para a compaixão e a empatia: «O justo conhece a causa dos pobres, porém o ímpio não o compreende» (Prov 29, 7). Deste modo entende-se a bem-aventurança «dos que choram» (Mt 5, 4), isto é, de quantos são capazes de sair de si mesmos porque se comoveram com o sofrimento alheio. O encontro com o outro e a abertura do coração às suas necessidades são ocasião de salvação e de bem-aventurança.
O facto de «prestar atenção» ao irmão inclui, igualmente, a solicitude pelo seu bem espiritual. E aqui desejo recordar um aspeto da vida cristã que me parece esquecido: a correção fraterna, tendo em vista a salvação eterna. De forma geral, hoje é-se muito sensível ao tema do cuidado e do amor que visa o bem físico e material dos outros, mas quase não se fala da responsabilidade espiritual pelos irmãos. Na Igreja dos primeiros tempos não era assim, como não o é nas comunidades verdadeiramente maduras na fé, nas quais se tem a peito não só a saúde corporal do irmão, mas também a da sua alma tendo em vista o seu destino derradeiro. Lemos na Sagrada Escritura: «Repreende o sábio e ele te amará. Dá conselhos ao sábio e ele tornar-se-á ainda mais sábio, ensina o justo e ele aumentará o seu saber» (Prov 9, 8-9). O próprio Cristo manda repreender o irmão que cometeu um pecado (cf. Mt 18, 15). O verbo usado para exprimir a correção fraterna – elenchein – é o mesmo que indica a missão profética, própria dos cristãos, de denunciar uma geração que se faz condescendente com o mal (cf. Ef 5, 11). A tradição da Igreja enumera entre as obras espirituais de misericórdia a de «corrigir os que erram». É importante recuperar esta dimensão do amor cristão. Não devemos ficar calados diante do mal. Penso aqui na atitude daqueles cristãos que preferem, por respeito humano ou mera comodidade, adequar-se à mentalidade comum em vez de alertar os próprios irmãos contra modos de pensar e agir que contradizem a verdade e não seguem o caminho do bem. Entretanto a advertência cristã nunca há-de ser animada por espírito de condenação ou censura; é sempre movida pelo amor e a misericórdia e brota duma verdadeira solicitude pelo bem do irmão. Diz o apóstolo Paulo: «Se porventura um homem for surpreendido nalguma falta, vós, que sois espirituais, corrigi essa pessoa com espírito de mansidão, e tu olha para ti próprio, não estejas também tu a ser tentado» (Gl 6, 1). Neste nosso mundo impregnado de individualismo, é necessário redescobrir a importância da correção fraterna, para caminharmos juntos para a santidade. É que «sete vezes cai o justo» (Prov 24, 16) – diz a Escritura –, e todos nós somos frágeis e imperfeitos (cf. 1 Jo 1, 8). Por isso, é um grande serviço ajudar, e deixar-se ajudar, a ler com verdade dentro de si mesmo, para melhorar a própria vida e seguir mais retamente o caminho do Senhor. Há sempre necessidade de um olhar que ama e corrige, que conhece e reconhece, que discerne e perdoa (cf. Lc 22, 61), como fez, e faz, Deus com cada um de nós.
2. «Uns aos outros»: o dom da reciprocidade. O facto de sermos o «guarda» dos outros contrasta com uma mentalidade que, reduzindo a vida unicamente à dimensão terrena, deixa de a considerar na sua perspetival escatológica e aceita qualquer opção moral em nome da liberdade individual. Uma sociedade como a atual pode tornar-se surda quer aos sofrimentos físicos, quer às exigências espirituais e morais da vida. Não deve ser assim na comunidade cristã! O apóstolo Paulo convida a procurar o que «leva à paz e à edificação mútua» (Rm 14, 19), favorecendo o «próximo no bem, em ordem à construção da comunidade» (Rm 15, 2), sem buscar «o próprio interesse, mas o do maior número, a fim de que eles sejam salvos» (1 Cor 10, 33). Esta recíproca correção e exortação, em espírito de humildade e de amor, deve fazer parte da vida da comunidade cristã.
Os discípulos do Senhor, unidos a Cristo através da Eucaristia, vivem numa comunhão que os liga uns aos outros como membros de um só corpo. Isto significa que o outro me pertence: a sua vida, a sua salvação têm a ver com a minha vida e a minha salvação. Tocamos aqui um elemento muito profundo da comunhão: a nossa existência está ligada com a dos outros, quer no bem quer no mal; tanto o pecado como as obras de amor possuem também uma dimensão social. Na Igreja, corpo místico de Cristo, verifica-se esta reciprocidade: a comunidade não cessa de fazer penitência e implorar perdão para os pecados dos seus filhos, mas alegra-se contínua e jubilosamente também com os testemunhos de virtude e de amor que nela se manifestam. Que «os membros tenham a mesma solicitude uns para com os outros» (1 Cor 12, 25) – afirma São Paulo –, porque somos um e o mesmo corpo. O amor pelos irmãos, do qual é expressão a esmola – típica prática quaresmal, juntamente com a oração e o jejum – radica-se nesta pertença comum. Também com a preocupação concreta pelos mais pobres, pode cada cristão expressar a sua participação no único corpo que é a Igreja. E é também atenção aos outros na reciprocidade saber reconhecer o bem que o Senhor faz neles e agradecer com eles pelos prodígios da graça que Deus, bom e omnipotente, continua a realizar nos seus filhos. Quando um cristão vislumbra no outro a ação do Espírito Santo, não pode deixar de se alegrar e dar glória ao Pai celeste (cf. Mt 5, 16).
3. «Para nos estimularmos ao amor e às boas obras»: caminhar juntos na santidade. Esta afirmação da Carta aos Hebreus (10, 24) impele-nos a considerar a vocação universal à santidade como o caminho constante na vida espiritual, a aspirar aos carismas mais elevados e a um amor cada vez mais alto e fecundo (cf. 1 Cor 12, 31 – 13, 13). A atenção recíproca tem como finalidade estimular-se, mutuamente, a um amor efetivo sempre maior, «como a luz da aurora, que cresce até ao romper do dia» (Prov 4, 18), à espera de viver o dia sem ocaso em Deus. O tempo, que nos é concedido na nossa vida, é precioso para descobrir e realizar as boas obras, no amor de Deus. Assim a própria Igreja cresce e se desenvolve para chegar à plena maturidade de Cristo (cf. Ef 4, 13). É nesta despectiva dinâmica de crescimento que se situa a nossa exortação a estimular-nos reciprocamente para chegar à plenitude do amor e das boas obras.
Infelizmente, está sempre presente a tentação da tibieza, de sufocar o Espírito, da recusa de «pôr a render os talentos» que nos foram dados para bem nosso e dos outros (cf. Mt 25, 24-28). Todos recebemos riquezas espirituais ou materiais úteis para a realização do plano divino, para o bem da Igreja e para a nossa salvação pessoal (cf. Lc 12, 21; 1 Tm 6, 18). Os mestres espirituais lembram que, na vida de fé, quem não avança, recua.
Queridos irmãos e irmãs, acolhamos o convite, sempre atual, para tendermos à «medida alta da vida cristã» (João Paulo II, Carta ap. Novo millennio ineunte, 31). A Igreja, na sua sabedoria, ao reconhecer e proclamar a bem-aventurança e a santidade de alguns cristãos exemplares, tem como finalidade também suscitar o desejo de imitar as suas virtudes. São Paulo exorta: «Adiantai-vos uns aos outros na mútua estima» (Rm 12, 10). Que todos, à vista de um mundo que exige dos cristãos um renovado testemunho de amor e fidelidade ao Senhor, sintam a urgência de esforçar-se por adiantar no amor, no serviço e nas obras boas (cf. Heb 6, 10). Este apelo ressoa particularmente forte neste tempo santo de preparação para a Páscoa.
Com votos de uma Quaresma santa e fecunda, confio-vos à intercessão da Bem-aventurada Virgem Maria e, de coração, concedo a todos a Bênção Apostólica.
Vaticano, 3 de Novembro de 2011
BENEDICTUS PP. XVI

Domingo, 19 de Fevereiro de 2012

Homilia do VII Domingo do Tempo Comum

Todos nós temos consciência que termos saúde é mais do que não termos doenças. Cada vez mais se insiste que, para sermos pessoas saudáveis, não importa não só ter alguma doença mas ter um certo bem-estar (a OMS diz que é um perfeito bem-estar…).
Se, nos domingos passados, ao vermos os milagres que Jesus faz, com quem aqueles que se encontra, no evangelho deste domingo introduz-se um novo ingrediente no conhecimento de Jesus. É que Jesus cura, não só o corpo mas também a alma; Jesus não é um simples curandeiro, não cura só doenças mas cura a nossa própria vida.
O fundo é sempre o mesmo: a misericórdia. Mesmo nos milagres do corpo está sempre presente a misericórdia, a proximidade de Deus, um Deus que não quer ver sofrer sozinhos mas que partilha o nosso sofrimento.
A misericórdia de Deus – que nós muitas vezes confundimos com pena – revela-se sempre com a nova oportunidade que Deus nos dá, no recomeço, com ele. Porque a misericórdia é a justiça de Deus – que não devemos confundir nem comparar com a nossa justiça.
Na semana passada, ao falarmos da lepra, como exclusão, falávamos também dos destinatários do anúncio do Reino. E se os milagres são um sinal do Reino, uma presença de Deus entre nós, o acolhimento que Jesus dá aos pecadores e o perdão dos pecados, é o sinal mais decisivo do Reino de Deus que já está presente no meio de nós.
Aos olhos dos que assistiram aos dois milagres – o perdão dos pecados é um verdadeiro milagre na nossa vida porque só Deus recomeça connosco limpando o passado – Jesus ultrapassa todos os limites porque, aos seus olhos, ele não é Deus para perdoar os pecados e curar as doenças. Um dos motivos da condenação de Jesus é exatamente este: dizer-se filho de Deus (Lc 23).
Mas este relato evangélico tem por detrás uma catequese que nos é muito útil a nós, que o escutámos neste domingo. A sequência é a mais lógica. Aqui a paralisia é mais que o não se mexer; é um estado psicossomático em que não é só o corpo que não reage, mas também a alma. Por isso o perdão dos pecados é a primeira possibilidade de cura. É a partir do perdão dos pecados que se abre a libertação para este homem. É o acolhimento da pura graça, da misericórdia de Deus na nossa vida.
Acolhermos e darmos. Este Evangelho ilustra bem esta partilha da misericórdia de Deus. Quatro amigos deste homem paralítico, que fazem tudo para o aproximarem de Jesus. Não o fazem por pena; fazem-no por misericórdia e com fé. A fé que está sempre presente em qualquer acção salvífica de Deus; e a misericórdia que é a prática do amor, que se manifesta na ternura, na compaixão e na sensibilidade de coração.
Aproxima-se a Quaresma. Na próxima quarta-feira, com a celebração das cinzas, vai-nos ser recordado que nos temos de voltar para Deus e acreditar no Evangelho. Este tempo, em que toda a Igreja entra neste dinamismo da misericórdia e do perdão, é o tempo de pedirmos a Deus o dom da cura. Esta nossa paralisia espiritual que se cura, antes de mais pelo perdão dos pecados e, depois, por uma vida sã, porque foi curada pelo próprio Deus.
Seja a primeira leitura um guia para esta nossa Quaresma, deixando que Deus deixe começar em nós uma realidade nova que é encher-nos da sua misericórdia e do seu amor. Que assim eja.

Sexta-feira, 17 de Fevereiro de 2012

Caminhos de Páscoa

DEIXAR-SE MODELAR PELAS MÃOS DE DEUS
Queridos amigos, Eis-nos às portas da Quaresma. Cada ano, o mesmo convite de conversão, mudança de vida, “trocar o instante pelo eterno”. Para uns será aquele tempo de penitência, o tempo das privações… para outros, um tempo necessário, de mais coerência e radicalidade. Que nos leva a sairmos de nós para nos encontrarmos com Deus? Que motivações para celebrar a Páscoa, fazendo da Quaresma um caminho de encontros, com Deus, com o próximo e comigo próprio? Só há uma resposta: a nossa vida. A nossa vida será a grande motivação para que mudemos o que ainda é imperfeito em nós, não numa luta feroz contra o corpo ou contra os vícios ou até os nossos maus feitios. O combate é outro. Não lutamos contra, mas fazemos caminho. Um caminho concreto, inspirado no Evangelho e nas circunstâncias concretas e atuais da minha vida.
No livro de Jeremias (18, 1-6), Deus pede a Jeremias que desça a casa de um oleiro, para ver como ele trabalha o barro. Jeremias diz que via o oleiro a trabalhar no torno, e quando a peça não lhe saía bem, o oleiro recomeçava a trabalhar o barro para lhe dar forma e desse uma bonita a peça. E Deus diz a Jeremias que nós somos o barro e Deus o oleiro. E que Deus nos vai moldando até que do barro nasça uma bela peça modelada pelas mãos do oleiro. É este o desafio da Quaresma e, em especial, desta Quaresma. Para isso, seguimos os conselhos de Jesus, que iremos escutar no Evangelho de quarta-feira de cinzas (Mt 6, 1-18): oração, jejum e esmola. Um tempo de maior relação com Deus pela oração, de maior relação comigo próprio, através do jejum, e de maior relação com o próximo, através da esmola.
O Convento de São Domingos, desde há uns anos, propõe algumas atividades celebrativas para marcar esta caminhada para a Páscoa e que agora apresentamos.
Celebrações litúrgicas. Valorizamos as celebrações litúrgicas, à luz da espiritualidade dominicana: breves e sucintas (breviter et succincte). O Beato Humberto de Románs (1194-1277), terceiro sucessor de São Domingos, dizia que as nossas liturgias deveriam ser “breves e sucintas para que os frades não percam a devoção e o seu estudo não seja prejudicado”. Além das celebrações mais fortes deste tempo da Quaresma e Semana Santa, iremos dar maior relevo às celebrações que estão ligadas ao programa “sextas da Quaresma”.
Sextas da Quaresma. Este é o título que damos a um tempo de oração, jejum e esmola. Normalmente acontecerão às sextas-feiras da Quaresma, com uma exceção (9 de Março), que será antecipada para a quarta-feira anterior. Neste tempo de oração e de silêncio, participaremos na eucaristia conventual (19.15), tomaremos uma refeição ligeira em silêncio (20h) e depois um tempo forte de oração em silêncio, concluiremos, em união com toda a Igreja, com a oração de Completas (21.50h). Parte do dinheiro da inscrição será dada aos pobres, como sinal de partilha e solidariedade.
Oração com cânticos de Taizé. Esta oração não é específica do tempo da Quaresma. Há muitos anos que o Convento promove, na primeira quarta-feira do mês, este momento de oração, com cânticos de Taizé. Nesta Quaresma de 2012 iremos ter duas primeiras quartas-feiras.
Retiro aberto. À semelhança de anos anteriores, iremos dedicar um dia de sábado, já próximo da Semana Santa, para fazer retiro. Retiro aberto, porque é um dia de retiro da comunidade religiosa, aberto a todos os que queiram falar de Deus ou com Deus.
Estas são simples propostas. O importante é não deixar de parar neste tempo de conversão e caminhada para a Páscoa, confiados na Palavra do Apóstolo Paulo: se morrermos com Cristo, também com ele ressuscitaremos.
Boa caminhada.
Fr. Filipe, op

CELEBRAÇÕES
Fevereiro:
22 – Missa com imposição das cinzas (19.15h). “Sextas da Quaresma”
24 – Sextas a Quaresma
Março:
2 – Sextas da Quaresma
7 – “Sextas da Quaresma”. Oração com cânticos de Taizé (21.30h)
16 - Sextas da Quaresma
23 - Sextas da Quaresma
24 – Retiro aberto (9.30h-17h)
30 - Sextas a Quaresma
Abril:
1 – Domingo de Ramos. Procissão e Missa (12h)
4 – Oração com cânticos de Taizé (21.30h)
5 – Oração de Laudes (8h). Missa da Ceia do Senhor (19h)
6 – Oração de Laudes (9h). Celebração da Paixão (15h). Adoração da Cruz com cânticos de Taizé (21.15h)
7 – Oração de Laudes (9h).
VIGILIA PASCAL (22.30h)
8 – Missa da Ressurreição do Senhor (12h)


Algumas indicações: Para a inscrição na refeição das sextas da quaresma (por telefone ou mail), deve indicar o nome, o dia para o qual se inscreve e um contato (mail ou telemóvel). As inscrições são limitadas (20 pessoas), encerram na véspera do dia do encontro e necessitam sempre de confirmação de quem recebe a inscrição. O pagamento (5 €) faz-se no fim da refeição. As inscrições para o retiro aberto começam a 5 de Março e terminam a 22 de Março. O preço de participação no retiro é de 15 € (almoço incluído). O pagamento faz-se depois do almoço.

INFORMAÇÕES / INSCRIÇÕES www.isdomingos.com | isdomingos@dominicanos.com.pt | tel.: 210322300

Domingo, 12 de Fevereiro de 2012

Homilia do VI Domingo do Tempo Comum

Quando o Concílio Vaticano II ordenou as leituras da Missa – antes do Concilio só havia duas leituras: a epístola e o Evangelho – teve critérios objetivos para o fazer. O grande critério foi o de que a Palavra de Deus fosse mais abundante e ler, durante um determinado tempo, as partes mais importantes da Bíblia. Isto trouxe logo duas inovações: a primeira começar a ler as leituras na língua vernácula e, depois, fazer uma ordenação concreta a partir de uma seleção de textos. Aos domingos passamos a ter 3 leituras: uma do Antigo Testamento, e duas do Novo, sendo que uma delas é o Evangelho. O Evangelho e a segunda leitura faz-se de uma forma semi-contínua, e a primeira leitura escolhe-se de acordo com o Evangelho.
Mas, por vezes, entre a primeira leitura e o Evangelho não há uma relação direta. Às vezes até acontece o contrário, como é o caso das leituras deste domingo: o tema é o mesmo, a lepra, mas as atitudes são diferentes: na primeira leitura Deus manda expulsar os leprosos da comunidade, no Evangelho Jesus aproxima-se dos leprosos para os integrar na comunidade. Como é possível, então, haver estas duas ideias tão diferentes na mesma celebração, sendo Deus o mesmo? Marcião, logo no século II, extremou esta questão ao defender que os cristãos não deveriam ler o Antigo Testamento porque o Deus do Antigo Testamento não condizia com o Deus de Jesus Cristo: e eterna questão entre Lei e Amor.
Nós sabemos que Jesus Cristo é a revelação definitiva de Deus e, que só podemos ler o Antigo Testamento à luz de Jesus Cristo, que o ilumina e lhe dá sentido.
Voltando aos nossos textos. Vemos que diante de uma doença contagiosa como a lepra, cada Testamento nos dá conselhos diferentes. A lepra tem, na Bíblia, um duplo sentido: o físico e o cultual. Físico porque é uma doença física, contagiosa, e cultual porque exclui do culto e da comunidade. Ora, só compreendendo a questão da pureza do Antigo Testamento, é que se pode medir o alcance da atitude de Jesus que, em vez de se afastar de um leproso, vai ao seu encontro, toca-lhe e cura-o. Tudo o contrário da primeira leitura, da lei ritual, que ordenava que alguém ao ver um leproso deveria afasta-se, evitar tocá-lo e não ficar também contagiado.
Quais são as intenções de Jesus? Antes de mais, para Jesus não há excluídos. Nem da sua presença nem na sua comunidade, que é a comunidade do Reino. Jesus, ao aproximar-se dos excluídos, sejam leprosos sejam as mulheres, as prostitutas, os cobradores de impostos… e a lista poderia ser atualizada pelos que hoje são excluídos ou que nós excluímos, quer dizer que uma coisa são os mandamentos de Deus e outra as tradições que eles criaram e impõem, usando o nome de Deus (Mc 7, 8-13). Para Jesus, tal como para Deus, o centro é o homem. Tudo está para o homem. As leis estão para favorecer o ser humano e não para o condenar e excluir. Jesus cumpre as leis de Deus que se baseiam na justiça, misericórdia e fidelidade. Por isso, as vítimas da sociedade são aqueles a quem Jesus dá prioridade no seu anúncio do Reino.
Ficaria incompleta esta homilia se não atualizássemos para a nossa vida. Porque a atitude de Jesus para com os excluídos deve ser a nossa. E não se pode entender por excluídos só os pobres ou os doentes. Há muita forma de exclusão, direta e indireta, em que caímos, muitas vezes por preconceito ou por pressão social, e são essas trevas que devem ser iluminadas pelo Evangelho de Jesus. Peçamos a Deus que nos torne sensíveis aos gritos dos que se sentem sós, estigmatizados, excomungados da Igreja ou excluídos da sociedade. E que a nossa generosidade não fique apenas na oração – que é importante – mas que tenhamos a coragem cristã, a mesma de Jesus, de estender a mão e de nos tornarmos próximos de quem Jesus é próximo.

Segunda-feira, 6 de Fevereiro de 2012

Homilia do V Domingo do Tempo Comum

O Evangelho que acabámos de escutar é de uma riqueza muito grande. Por um lado porque é o primeiro relato do Novo Testamento – São Marcos foi o primeiro dos quatro evangelistas a escrever o seu Evangelho – que nos conta os primeiros passos da vida de Jesus.
Ao contrário dos outros evangelistas, Marcos não fala da infância de Jesus. Para ele Jesus é o consagrado pelo Pai, no momento do batismo, e que, com a força do Espírito, numa relação íntima com o Pai, começa a realizar a sua missão no meio de nós.
Hoje escutámos o primeiro dia desta missão de Jesus que se resume a três atitudes: milagres, oração e pregação. Se tivermos em conta o Evangelho da semana passada, vemos que Jesus muda de sítio: tinha feito um milagre na sinagoga e, hoje, já está num outro espaço, na casa de Pedro, e é aí que Jesus passa quase todo o dia a fazer milagres. No final voltaremos a retomar este pormenor.
Mas esta é uma das grandes atividades de Jesus: fazer milagres. Quase como oposição à tristeza de Job, que escutámos na primeira leitura.
Job representa bem a condição humana. O capítulo 7, que acabámos de escutar, é o primeiro desabafo de Job, depois de escutar a mulher e os três amigos que o vêm visitar para o consolar, numa consolação baseada na ideia do Antigo Testamento, de que a doença e o sofrimento são uma correção de Deus. Esta ideia é contrária à do Evangelho.
No Evangelho vemos, não só, que Jesus cura aqueles que vêm ter com ele, mas que também se aproxima dos que sofrem, dos quem estão doente, para os curar. E, então, esta seria a primeira grande conclusão das leituras deste domingo: a grande proximidade de Jesus para connosco, mesmo nos momentos de maior fragilidade, de maior sofrimento ou de doença. Nunca será demais repetir de que Deus não nos castiga mas que é solidário com o nosso sofrimento. E talvez o grande milagre que nós lhe possamos pedir nos momentos difíceis da vida, é o de sentir a sua força e a sua presença. Deus habita e dá sentido ao nosso sofrimento. Não estamos sozinhos; Deus estará sempre connosco.
O segundo momento da vida de Jesus, relatado por Marcos, é o da oração. Jesus não passa sem oração, pelo contrário, dedica muito tempo à oração. Neste relato, vemos dois aspetos da oração de Jesus: Jesus reza ao Pai e Jesus afasta-se para um lugar ermo, distanciado do barulho da cidade, para estar a sós com o Pai. Este é também, para nós, um grande ensinamento de Jesus. Ser cristão não é só fazer coisas, freneticamente, ou o outro extremo, só orações. Não. O nosso testemunho no mundo, a nossa vida há-de ser pautada pela oração e pelo trabalho, fazendo do trabalho oração e da oração trabalho.
Finalmente, a terceira dimensão deste dia longo de Jesus, a pregação. A cada um de nós foi dada a mesma missão que Paulo nos dizia de uma maneira tão viva na segunda leitura: anunciar o Evangelho. Não é uma honra mas uma obrigação, não é só para uns, é para todos. Jesus prega a Boa-nova do Reino, nós os discípulos de Jesus continuamos esta mesma missão.
Retomamos agora a primeira ideia desta homilia: Jesus mudou de sítio: da sinagoga para uma casa, a casa de Pedro. Este é um pormenor que deve também estar presente na nossa vida: não devemos ser os melhores só na igreja que frequentamos. A nossa casa – casa da família, escola, trabalho – são também lugares que precisam do nosso testemunho e das nossas boas ações.
Peçamos, então, ao Senhor, que oriente a nossa vida para o bem. Que nos dê esta consciência de que ser cristão, hoje, é estar próximo das necessidades e dos sofrimentos dos irmãos, de que a nossa vida sem oração se converte numa máquina repetidora de palavras e ações sem sentido e de que a nossa vida deve ser um evangelho vivo, por onde as palavras e os gestos de Jesus hoje passam.
Que assim seja.

Sábado, 4 de Fevereiro de 2012

Antologia poético-teológica - 32

Simónides quis um dia persuadir um dos seus amigos a deixar de lado a busca de Deus e a aplicar o seu espírito às realidades humanas, declarando-lhe que o homem deve preocupar-se apenas com as coisas que estão ao seu alcance: compraza-se o homem no homem, ocupe-se o mortal com as coisas mortais, A isto retorquiu Aristóteles, que, pelo contrário, deve o homem elevar-se, tanto quanto pode, às realidades imortais e divinas., Sem dúvida pouco pode compreender acerca delas, mas esse pouco é mais digno do amor e do desejo do que o conhecimento das realidades inferiores. Com efeito, o problema de universo, mesmo que por hipóteses provisórias, dá-nos grande alegria intelectual.
Destas palavras de Aristóteles depreende-se que um conhecimento imperfeito das realidades superiores confere à alma uma perfeição suprema. Face ao que ultrapassa a razão, o espírito não pode colocar-se ao mesmo nível; mas, mesmo que na mediocridade da fé, há uma alta perfeição em tentar aceder-lhes.
(…) A essas verdades da fé que só se tornam perceptíveis na visão do próprio Deus, pode aceder a razão humana por analogias. Não se podem evidentemente estabelecer demonstrações ou evidências; mas, longe do que seria presunção, o espírito em seus débeis raciocínios e pequenas considerações, experimenta extrema satisfação.
(…) É este caminho do espirito que faz exaltar Hilário no seu livro acerca da Trindade: “Na tua fé, empreende, progride, diligencia. Não chegarás nunca ao termo, mas o mínimo progresso está já cheio de graça. Quem persegue o infinito com fervor progride, mesmo que não alcance os seus fins. Mas para tanto, não ouses pretender decifrar o mistério, quando assim emerges na verdade sem margens: a primeira condição é compreender que ele ultrapassa toda a compreensão.
(S. Tomás de Aquino, Suma contra os Gentios)